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A morte do baterista Neil Peart, o porQUÊ do rock, e sua (DES)influência.

Anos 1970

A morte de Neil Peart, o baterista da banda Rush, foi comunicada pela imprensa no dia 10 de janeiro. Não foi “apenas” a morte de um grande músico, mas praticamente o fim de uma época – segundo certos parâmetros, é claro. Explicando: já vaticinou-se a morte do rock progressivo há décadas, o que não é uma inverdade. Pois parece que o estilo não faz mais sentido – isso é, se ele não “progredir” de alguma forma e encontrar novos objetivos. Creiam que o próprio nome do estilo é o seu epitáfio: progressivo… Ou seja, nada está mais distante do rock progressivo do que o progresso, já que seus fãs ainda idolatram as decantadas fórmulas da década de 1970, e não progridem, fossilizam-se em um passado glorioso. Ressuscitar um estilo musical ou copiar a estética de um filme, por exemplo, não significa que ele ainda é relevante. E aí, volta-se à pergunta: ter moicano em 2020 significaria que o punk rock e o hardcore não morreram? Há duas coisas distintas e que se contradizem: a discussão ideológica-estética e a perenidade e a necessidade de estilos de épocas longínquas ainda existirem, sem terem à sua volta, e como fermento, o velho mundo no qual nasceram…

Rush ri…

Mas voltando à vaca fria, não é preciso destacar a importância de Neil Peart para o mundo da música e nem a sua contribuição para os temas de ficção-científica da banda. O que posso fazer neste momento, é contribuir com memórias e a relação com a minha vida pré e pós-bandas. E o Rush povoou o meu imaginário entre a segunda metade dos anos 1970 até 1980.

Análise sobre o por que do rock progressivo e comentários pessoais sobre a morte do baterista Neil Peart do Rush
Neil Peart ao vivo na década de 1970 entre tons e bigodes.

Poucos músicos de rock visitaram o Brasil nos anos 1970. Dá para contar nos dedos. Mas houve um maná para um adolescente como eu chamado punk rock – que já se ouvia falar em 1976. Rock ou era um negócio de hippie, de músicos considerados “velhos” ou pesado ou “progressivo”… No colégio nessa época, escutava-se Zep, Purple – e menos o Sabbath, mas eu não gostava tanto. Era a época que dizia-se que o AC/DC – ainda desconhecido no país – era uma banda de punk rock e que o Queen era uma banda “curiosa” – que não iria muito longe (“outra cópia do Zep”)… Acreditem.

E não há como descrever o impacto de bandas como New York Dolls, Television, The Clash, Sex Pistols, The Jam, Patti Smith naquela época. O rock estava mofado e eles desmofaram. Atitude, som, timbres, roupas, cabelos, letras completamente diferentes. Mesmo assim eu ainda escutava Rush e adorava. Lembro bem da exibição do clipe de A Farewell To Kings no programa Rock Concert da Globo com sua introdução de violão no estilo Bach. Eu nem tinha vídeo-cassete para registrar… O Rush era, como todo rock pesado, um pouco petulante e brega, mas também era instigante. Se o punk rock instigava, o Rush também podia fazer isso de outra forma (sem entrar em conceitos de toca “bem” ou “mal”… Uma discussão capenga).

Lembro bem da resenha do disco Fly By Night (1975) na revista brasileira Pop que dizia em letras bem impressas que ninguém deveria levar o tal do Rush a sério, considerado uma pálida cópia do Led Zeppelin (o mesmo tipo de crítica feita aos Beatles em 1963) e recordo como eu e meus colegas de colégio curtíamos os álbuns Caress of Steel, 2112, All the World´s a Stage, A Farewell to Kings, Hemispheres, Exit… Stage Left e Moving Pictures. E ao mesmo tempo eu ainda amava – e cada vez mais – o punk rock.

Na faculdade de jornalismo por volta de 1983, cabulávamos algumas aulas e em uma sala vazia, um dos veteranos da faculdade, Ivo Ricardo, baixista da banda carioca Água Brava (que imitava o Rush sem pundonor), tocava para uma grupo de 4 alunos, em um Betacam, os vídeos ao vivo do Rush (Exit…Stage Left) e do Thin Lizzy (Live and Dangerous).

Em 1992, já tocando na banda Dorsal Atlântica e me sentindo obrigado pelo público e gravadora a fazer e gravar mais do mesmo, eu comentei com os outros músicos do grupo que  gostaria de compor um disco mais ousado, espiritual, pesado mas “progressivo”. O nome escolhido para o LP foi Musical Guide from the Stellium e faixas como Kali Yuga e Thy Will be Done exibem a influência do Rush e o que eles nos ensinaram: sermos “pesados, mas progressivos”. E aí entra a verdadeira acepção do nome, da alcunha: como artista, nunca me repeti, aboli fórmulas e fui… progressivo. Logo quem!? O filho do punk rock!

Quando o Rush decidiu pela primeira vez tocar no Brasil, em 2002 no Maracanã, eu estava tocando em Goiânia Rock City com a minha banda Mustang. Já tendo absorvido as lições de todos os estilos, de toda uma vida e literalmente (desculpem o termo) “cagando e andando” para o mercado, o lugar-comum e as obviedades da vida.

Em 2010, o Rush retornou ao país e no Rio tocaram na Praça da Apoteose. E aí, entra em cena o meu cansaço pessoal do rock, e das pessoas. Este relato pode soar muito pessoal (e é), mas acredito ser importante mencionar que a vida é uma questão de escolhas. Um bom amigo pagou o meu ingresso, mas ele se perdeu de mim porque havia bebido demais e sumiu por aí, dentro da Apoteose. Mas horas antes de entrar no show, eu estava com um grupo de conhecidos de outro Estado, que vieram ao Rio ver o Rush, mas mesmo sabendo que eu sou “de careta”, um deles tentou esfregar cocaína no meu nariz… Ali foi como a gota d´água  do saco cheio de um monte de coisas. Aguentei o show do Rush até a metade, mas tudo aquilo estava forçado demais, todo mundo doido e eu ouvindo algo que não fazia o mínimo sentido e resolvi ir embora. Ao sair da Apoteose, um grupo de pessoas no alto de um viaduto ao lado, me reconheceu e começou a gritar meu nome e a acenar para mim. Sorri de volta, segui adiante, caminhei até o Circo Voador, na noite abandonada da Lapa, entre abandonados pela vida e fui fazer compras em um super mercado na madrugada enquanto rolava um Rush na Apoteose

O que relatei sobre a última tentativa de assistir à banda em um momento não adequado e de ter visto tanta gente amontoada sem razão de ser, remete-me seriamente à questão do hedonismo na música e na vida como expressão de liberdade individual. Pelo o que relatei, e por convicção, eu não acredito nesse ponto de vista que agrego ao neoliberalismo. Tanto, que sem querer julgar, mas mostrando que Peart acreditava no hedonismo – que a meu ver ele confundia com liberdade -, leiam essa polêmica entrevista de 1978 no link abaixo.

https://www.theguardian.com/music/2015/may/13/rush-nme-interview-1978-rocks-backpages?fbclid=IwAR34KElPKKeA6PFyyKPnXQq2EbjwBVeQCTLLZoJnNBwHVGIz7d_N2qmxT6Y

Cada um no seu quadrado, com ou sem sonhos e fantasias.

Encerro este texto agradecendo a Peart pela inspiração e dizendo que a vida e a morte, para quem acredita, são a mesma coisa. As pessoas nunca morrem, elas se encantam. E nos encantam.

DOCUMENTÁRIOS SOBRE O ROCK SETENTISTA BRASILEIRO

“Som, Sol & Surf– Saquarema” de Hélio Pitanga e “Meu Tio e o Joelho de Porco” de Rafael Terpins (ambos lançados em 2018)

Por Fausto Mucin.

SAQUAREMA 1976

Acompanhei tudo sobre o famoso festival de Saquarema, cidade praiana no interior do Rio de Janeiro, pela resistente publicação “Rock, a História e a Glória” em 1976. Eu tinha 15 anos na época, e nem um centavo pra ir a lugar nenhum. O nosso movimento setentista tinha uma rainha (Rita Lee) e, que eu saiba, dois músicos deficientes físicos: o baterista Rolando Castello Júnior (do Made nos anos 1970) da Patrulha do Espaço e o vocalista do Bixo da Seda, Fughetti Luz, todos do primeiro escalão. Simbólico e maravilhoso. Através da revista impressa, soube do caos ocorrido nesse grande encontro de feras e imaginava os motivos, mas no documentário “Som, Sol & Surf– Saquarema”o jornalista-produtor Nelson Motta – e outros envolvidos – falam com total clareza sobre os bastidores do festival. Pena que quase tudo no Brasil peque por falta de planejamento e estrutura, mas, como o próprio filme explicita, temos arte, música e resistência, principalmente naquela época onde todos parecíamos um só corpo, sem divisões.

No documentário surgem o Made in Brazil em forma, talvez em sua melhor forma; Raul Seixas brilhando como sempre, – se ele só arrotasse já brilharia por si -; Bixo da Seda hipnotizante – há algo mágico ali que repercute até hoje -; Ângela Rorô e Rita Lee e Tutti Frutti – talvez em sua melhor forma também… Aliás, entendo os percalços da produção e a pressão da ditadura, mas fiquei assustado com a ingenuidade da produção em contar com alguns participantes inexperientes, filmar em 16 milímetros, e gravar em fitas de 30 minutos… Se rolassem mesmo, o disco ao vivo e o filme nos anos 1970 teria sido praticamente um milagre. Muito bom ter feito esta viagem ao tempo e constatar tudo isso.

Nota negativa para o “Bobão” (para bom entendedor, uma letra trocada basta) que mesmo presente ao festival, disse que não viu show algum, – e que nem sabia o motivo de estar lá. Se o rock errou, foi principalmente por tê-lo como depoente…

“A coisa mais anti-rock’n’roll que existe é uma ditadura militar.”

A reflexão acima é de Nelson Motta. Sempre gostei dele apesar de ser muito global, mas assumo que ele foi influente em minha formação, essencial mesmo, mas acho, apenas acho que desta vez, em 2019, ele pode estar enganado. E por quê? Artística e musicalmente, o negócio piorou muito de Saquarema pra cá. Se hoje temos planejamento e estrutura melhores, uma parte significativa dos músicos do estilo ainda não entendeu nada sobre o que é ser um músico de rock, e o que é a ditadura…

Ou será que fui eu que envelheci com meus sonhos?

Vontade de agradecer pessoalmente a quem filmou o festival – Gilberto Loureiro falecido em 2013 -, ao restaurador Chico Moreira – falecido em 2016 – e ao diretor Hélio Pitanga.

JOELHO DE PORCO

O documentário, como o título adianta, foi dirigido pelo sobrinho de Tico Terpins, baixista e fundador da banda Joelho de Porco. Fala-se sobre o Joelho, mas principalmente sobre o tio. Mesmo como filme-familiar, muito me interessou o que fez de Tico Terpins ser um artista. Judeu, rico, e um verdadeiro espírito de porco literal (he, he). O baixista escondia sardinha no carro dos outros para feder, colocava revistas pornôs nas bolsas das socialites (que seja) e zoava o público e os apresentadores de TV. Mas assumo que tudo isso me soou um pouco como cuspir pra cima, estourar as pontes, e fechar as portas por onde se passa… Na fase da primeira mulher, Tico conseguiu se consolidar, e a banda cresceu, frutificou, mas já na segunda esposa, me pareceu que perdeu-se o motivo de viver… Algumas mulheres fazem de você uma outra pessoa – ou deixa-se fazer… E quando não se é mais você, quando se perde a essência, pode ser o fim da linha. Não sei se foi isso o que ocorreu, mas assim me pareceu.

O vocalista Próspero Albanese, com quem hoje tenho um relacionamento saudável, foi quem saiu da banda. Nunca imaginei que fosse isso, uma pena… No retorno ao Joelho, como Albanese mesmo disse, já era outra coisa… E sobre o vocalista ítalo-portenho Billy Bond é melhor não dizer nada… Uma pena que ele não tenha contribuído com depoimentos e nem cedido direitos de imagem. Soa-me ressentimento, e isso é condenável, mas pelo depoimento de um produtor – ou empresário – do Joelho, foi Bond quem pagou pra entrar na banda!

Este é um documentário que todos que amam o rock brasileiro devem assistir. Muitos depoimentos interessantes, imagens inéditas e filmagens antigas.

“Rafa, sabe esta pilha alcalina? Os Terpins são daquelas amarelinhas bem vagabundas.”

A Mangueira honrou a nação brasileira!

O carnaval não é uma festa que pertença a todos os brasileiros. Eu já acreditei nisso – ou fui induzido a – na mais tenra idade. Assim como acreditei que os telejornais e jornais só diziam a verdade – mas eu era criança. E quando criança estudei em colégios públicos – frutos da máxima de Anísio Teixeira de educação gratuita e de qualidade. Se era de extrema qualidade não posso afirmar, mas aprendi inglês e a ler partituras musicais nesses estabelecimentos. E aprendi a conviver com amigos de comunidades carentes. E por deixar que pessoas como eu tivessem alguma consciência social é que Teixeira acabou morto em um poço de elevador em circunstâncias para lá de misteriosas – assim como é um mistério o que tem acontecido com este país nos últimos meses.

Carnaval é a festa da carne, de desejos inconfessáveis, que desde o Império serviam para aliviar as mazelas da população. Período festivo em que negros e pobres paupérrimos vestiam-se de reis. Data em que o próprio Imperador fazia reverências a reis negros para que a farsa aliviasse a pressão social. Afinal não foi este país alcunhado de “ditabranda” por revista de circulação nacional e chamado de democracia racial por artífices da construção nacional?

Para manter-se o equilíbrio social, têm-se alimentado a prática nacional de não resolver as questões profundas e surfar na superficialidade. A mesma superficialidade que ainda afirma que os pilotis de Brasília são áreas de ampla convivência social como as praias cariocas não são subdivididas em classes.

Tupinambás (captura de tela)

Mas para pessoas como eu, “doente dos pés”, Carnaval também é um período de reflexão e imersão. Meu Carnaval não se faz a dançar nas ruas, mas no hábito de assistir aos desfiles pela TV – e de algumas vezes ter ido a ensaios em Escolas de Samba e à Marquês de Sapucaí no Rio para acompanhar a concentração das Escolas, ver os carros alegóricos e os seres humanos sob as fantasias. Quando adolescente eu só queria saber de rock and roll. O tempo me fez ver, mais do que crer, que rock não era apenas rebeldia à esquerda e samba à direita. Compreensão parcial da própria superficialidade que me cercava. Mas ao me libertar desses grilhões que antes me prendiam conheci um país sonhador mas doente, mestiço e racista, de glórias mil e grilhões centenários. E meu catecismo libertador teve seu apogeu nos grandes sambas enredos.

Em 2018, muitos encantaram-se com o samba “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” da Paraíso da Tuiuti, mas uma coisa é deixar-se encantar, outra é compreender. Quem sabe se muitos desses encantados não preferiram o encantamento da mamadeira, da escola sem partido, da bíblia e das fake news em detrimento de sua própria essência?

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Assassinos!

A essência dos blocos carnavalescos é a crítica e todo governante teme as seqüelas. O popular desconstrói e destrói. E as Escolas de Samba, estejam ou não rendidas ao poder econômico, à censura das transmissões televisivas, ao corporativismo, nada disso mais importa quando a consciência precisa respirar o seu último ar de dignidade, nada disso mais importa quando o ar está carregado de indignidade. E em momentos farsescos como os que vivemos ameaças são dirigidas aos artistas, aos negros que não aceitam os grilhões, às comunidades carentes submetidas ao regime das balas dos traficantes e dos militares salvadores da Pátria, ameaças ditas nas entrelinhas.

Mas seja por qual motivo for, se por raiva ou pela falta de investimento no carnaval, eu já não quero mais saber, pelo menos a minha e a alma de milhões de brasileiros está lavada pelo Samba-Enredo “Histórias pra Ninar Gente Grande” da Mangueira de 2019.

Duque de Caxias o exterminador (captura de tela).

A melodia não me empolgou como ocorreu com a Tuiuti de 2018, mas tudo o que cerca a composição, sua letra, coreografia, dançarinos, carros alegóricos, a imagética, o momento, tudo somado me atiça o espírito revolucionário, e eu espectador passivo liberto o meu, o seu, o nosso Marighella ao ver a história oficial reduzida a anões (sem culpar os anões, é claro) e índios, negros e mulheres elevados a heróis.

RIO DE JANEIRO, RJ 04.03.2018 – Carnaval 2019 – Desfile da Mangueira. foto: Emiliano Capozoli

A cena do carro alegórico do monumento aos bandeirantes mergulhado em sangue (“O sangue retinto por trás do herói emoldurado” sobre o genocídio de mais de 300 mil índios pelos Bandeirantes) e o patrono do exército mostrado como um assassino sobre cadáveres talvez tenham sido as cenas mais fortes que já tive a honra de ver em um carnaval.

Mônica Benício, viúva de Marielle Franco.

Chorei ao ver Mônica Benício, a viúva de Marielle Franco desfilar altiva na Passarela, mulher guerreira, santificada pela dor, honrada como poucas e envolta por estandartes com o rosto de sua amada.

Um ano após ter sido executada por policiais, e sabe-se se por governantes no poder, Marielle é uma sombra incômoda ao poder estabelecido, uma cusparada na cara dos hipócritas, dos que sambaram ao enredo da Tuiuti e o negaram ao votar.

Ergam os punhos, desfraldem a bandeira.

“Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.”

Obrigado, Mangueira!

Seja Marginal, Seja Herói!