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GERSON KING COMBO

Durante a ditadura nos anos 70 e apesar de toda repressão, os jovens só queriam viver como jovens, curtir um som, vestir as roupas mais legais, ganhar a menina do baile. Esse processo ocorre com todas as classes sociais e não poderia ser diferente em nenhum outro lugar. As comunidades negras influenciadas pelo som do mestre James Brown deram início a um movimento que transformou o “I´m Black And I´m Proud” em uma versão nacional do orgulho negro. A música foi o veículo mais utilizado, bem mais do que a política. O movimento Black Rio teve entre seus expoentes um ex-dançarino chamado Rodrigues Cortes que após rodar muito teve a chance de registrar em seu primeiro LP solo em 1977 uma pérola chamada “Mandamentos Black” onde dizia que um black de verdade deveria “amar como ama um black”. A partir daí veio o sucesso, o carrão e as roupas vistosas mas tudo isso acabou em pouco tempo. Alijado do mercado, voltou à obscuridade. Muitos anos depois reapareceu do nada em uma participação na banda Clave de Soul na finada casa Ballroom no Rio em 14 de setembro de 1998. A partir daí o velho dançarino, hoje com 74 anos, (re)assumiu o seu nome de guerra favorito: Gerson King Combo.

Após trocarmos umas figurinhas, marcamos a entrevista na residência do King, que durou 4 horas. Ao final, o próprio Gerson me pediu para participar de um churrasco com os vizinhos. Respondi “Sem problemas”, visto que havia realizado uma das maiores e melhores entrevistas da minha carreira.

Obrigado Funk brother soul.

Quem é Gerson e onde nasceu?

Nasci em 30 de novembro de 1943 em Madureira, Rio de Janeiro na rua Andrade Figueira 394 onde está meu irmão Getulio Cortês (nota: autor de Negro Gato entre outras). Nossos antepassados eram mineiros, nós fomos os primeiros cariocas. Éramos 2 casais de filhos, uma irmã é falecida. O inicio de todo mundo você sabe como é: pobreza, beira de morro. Meu pai era policia militar, era loucura. Chegava o natal, cada um “vestia” um pé do sapato. Fomos crescendo, estudando sem sair de Madureira.

Você escutava muita música?

Muito, influencia do meu irmão que era um dos melhores dançarinos de rock. Você lembra como era o rock antigo? Piruetas, rodopios e eu era um exímio dançarino. Ganhava prêmios e prêmios.

Você participou de algum concurso em clubes?

Vários, eu e o “Imperial” (Carlos Imperial, ator, cineasta, apresentador e compositor). Aí começou o programa do Jair de Taumaturgo “Hoje é Dia de Rock” na rádio Mayrink Veiga. Eu trabalhava por ali e vi aquela turma passando, na época era muito topete. Todo sábado quando eu ia trabalhar, fechava por volta de uma hora justamente quando a turma estava indo para a rádio Tupi. Um dia eu os segui para ver onde eles estavam indo. Fiquei extasiado, já tinha conjuntos de mímica, uma loucura danada, ai eu pensei “O que é isso, eu sei dançar. Como é que se inscreve aqui pra vir dancar? Ah você tem que pegar um disco…”

Naquela tarde mesmo não entrei porque tinha que pagar ingresso e fiquei de voltar. No meio da semana eu voltei, cheguei lá comecei a ouvir uma musica, acho que era Little Richard… aí eu comecei a ensaiar. Fui lá no meio da semana e me inscrevi, me lembro que eu tirei terceiro lugar. Fiquei lá vendo e foi aí que eu vi o interior da coisa, o pessoal dançando no palco. Eu pensava que eu era o bom, mas não teve jeito: tinha uns quatro melhores do que eu, mas tinha uns bailarinos, nem lembro o nome deles, cara, que eram piores do que eu. Tirei em quarto ou quinto lugar. Eu não me dei por convencido, cheguei em Madureira e encontrei no Imperial Basquete Club na Estrada do Portela um amigo e perguntei pra ele: “Você conhece aquele programa? Que tal se a gente fizesse uma dupla?” Aí formou uma dupla, um trio…

Qual era o nome desse seu amigo?

Juscelino Braga, ele é baixista toca na noite. Começamos um movimento ali em Madureira. Que ninguém vinha pra cá, da zona norte tinha apenas uma turma de Marechal Hermes que vinha.

Isso era no começo dos anos 60?

1959/1960 por aí com certeza eu era bem menino.

Você conheceu o pessoal da Tijuca? Tinha noção do que estava sendo feito por lá, Tim, Erasmo?

Comecei a participar do programa na rádio Mayrink Veiga, um tempo depois mudou pra Tupi, mudou de novo para outra rádio e fui começando a levantar junto com essa turma. O astro daquela epoca era o Marcianita, Sérgio Murilo e não tinha nem Wanderléa. O que existia era os Snakes que era o Tim Maia e o Erasmo. O Roberto que não tinha vez aliás é o padrinho do meu filho.Começamos lá o movimento de “Hoje é Dia de Rock” que foi se alastrando para outros subúrbios. Madureira era um ponto critico entre a cidade e outros locais, Nova Iguaçu. Todo mundo saltava lá para ir para esses lugares e foi onde eu liderei porque eu morava quase do lado da estação de trem de Madureira.

As pessoas que saltavam falavam, (“Esse cara aí já foi na rádio”), então nós fomos juntando vários amigos, Guaraci, Eni, Jorge. Ali conheci Juscelino Braga que nunca me largou. E eu como exímio dançarino fui fazendo as coreografias. O conjunto se chamava primeiro Imperialista por causa do Imperial Basquete Club que era onde a gente ensaiava. Havia os The Drinks que eram os bebuns, a turma que estava começando a tomar Cuba Libre. As garotas eram escarças, eu estava me sobressaindo, eu era o mais moreno do grupo, eles eram meio durões, eram sambistas não eram do rock

Nessa época você tinha interesse pelo samba?

Não, eu nunca tive, por causa da influência do meu irmão que ouvia rock o dia inteiro eu fui crescendo ouvindo isso. Eu gostava do Império Serrano, sabe mas eu tinha um medo porque meu pai e minha mãe falavam “Não vai pra rua que tem uns crioulos do Império Serrano que pegam criança!” Aquilo me apavorava, então aquele negócio de samba pra mi era um tabu. Quando eu via aquele negão descendo de terno branco e chapéu panamá eu corria. Ficava com medo, era justamente o bicho-papão que minha mãe falava. Ai eu ouvia no rádio, a gente não tinha televisão. O bandido Zé da Ilha eu associava logo com o samba. Passava longe de Escola de Samba. E nessa coisa eu fui conhecendo uma turma por morar no centro de Madureira. Tinha os bicheiros, tinha o Natal, que era como um padrinho meu, ele comprou o primeiro time de futebol que eu joguei, eu era um exímio jogador de futebol. Para proteger os bicheiros, a gente gritava: “Sai, sai” quando a polícia vinha. A gente tinha que correr na frente dos policiais pra dar tempo dos caras guardarem tudo. E quem se destacasse na corrida era premiado.

Eu nunca deixei ninguém me passar, fiquei quase de titular, o Natal me dava cinco mil reis. Foi aí que começou o The Drinks, a primeira namorada, cinema, primeira traição também, cheguei lá estava agarrada com outro, foi aí que eu soube o que é ser corneado.

Ai fomos ganhando, ganhando, até que em 1962 ganhei o melhor individual. Meu irmão Getúlio ganhou um prêmio cantando em inglês. Juscelino já aprendendo o baixo. O “Hoje é Dia de Rock” já estava em decadência.

 

 “EU DESCOBRI O TONY TORNADO.”

Ganhamos o melhor conjunto. Eu vim no trem com quatro troféus. O melhor dançarino inclusive. Papei quase tudo até que fui proibido de disputar porque eu não tinha mais o que alcançar.

Com 17 anos fui me inscrever na pára-quedista e nesse interim comecou a aparecer Wanderléa, Rosemary, Kátia, Erasmo Carlos, Roberto. Nâo tinha Jerry nem Wanderley Cardoso. O Tim Maia não venceu muito porque ele era gordinho e muito feio e tinha uma discriminação de que negão tem que ser bom, ele era muito bom mas muito briguento. A primeira vez que ele foi na rádio Mayrink Veiga levaram a gente para a Boite Plaza, eu já comecei a trabalhar na noite, sem ganhar nada. O Roberto Carlos falava “Porra, tô trabalhando na boite Plaza”. Aquilo pra gente era o máximo.

Onde era a Boite Plaza?

Na Prado Júnior em Copacabana. Foi uma das primeiras. Já tinha o movimento Bossa Nova, mas era uma elite. Gente rica elitizada e quem gostava de rock era um infeliz. Se a gente tivesse esses cabelos de vocês naquela época seriamos discriminadíssimos: “Maluco, não tomam banho”. Então fiz a inscrição nos pára-quedistas, por causa de uma namorada. Como o meu irmão já estava nos pára-quedistas, eu tinha que ser o melhor. Fui lá e perguntaram: “Alguém quer ser pára-quedista?” Ai eu levantei o dedo, fui um dos únicos. Nesse primeiro dia, tinha um negro de quase dois metros que me viu e me conheceu da rádio Mayirink Veiga. Ai ele começou a brincar comigo: “Aí topete, eu não gostei, isso aqui é pra homem, topetinho”.

Ele ja era pára-quedista há muito tempo. Ele me encarnou ele brincava e eu sério. Esse negão se chama Antonio Vianna Gomes, eu o trouxe para tocar no The Drinks, mas ele era muito alto, um negão que acho que esticava o cabelo. O pessoal logo discriminou: “Pô negão, um crioulo só já basta, ele é muito alto e desengonçado.” E eu o trouxe para fazer a primeira inscrição, ensinei a primeira música…

Quando o Imperial ouviu (o apresentador Carlos Imperial tinha um programa na TV Continental) então eu fui pra lá com ele e o Carlos Imperial colocou o nome nele de Tony Cheker, posteriormente Tony Tornado. Ele nunca reconheceu que fomos nós que o trouxemos para a vida artística. Mas eu perdôo. A vida dele era sofrida aqui no Rio, o teto caiu na cabeca da mãe dele e ela acabou morrendo. Mas deixa isso pra lá…

Eu era muito solicitado, era eu junto com os aqueles artistas todos. O The Drinkers chegava e já era uma coqueluche. E fomos cantando em 1964. O Roberto gravou Splish-Splash, meu irmão Getulio junto também, tinha o Renato e seus Blue Caps.

Vocês eram um grupo musical?

Era só de mímica. Em 1962, conheci a minha esposa. Eu sou viúvo, ela é a mãe do meu filho, uma negra linda, a mais bonita que estava lá. Começamos a dançar juntos. Nós viajamos com o Zé Trindade, pelo Brasil inteiro fazendo mímica.

Como a dupla se chamava?

Gerson e Angélica, inclusive emendavam o nome, chamavam “Gersonangélica”, pensavam que era um só. Em 1964 fizemos um programa só nosso na TV Rio. O Carlos Imperial tinha vários dias e quarta-feira era só nosso. Sucesso! Às seis e meia da tarde. A gente fazia uns esquetes tudo dentro da mimica, mas às vezes eu nem sabia o que a música dizia. A música dizia Cry (chorar), eu estava rindo, às vezes dizia fly (voar) e eu nadando… (risos). Depois nós tivemos mais consciência. Foi quando pintou no Rio, a Jovem Guarda. Meu irmão Getúlio Cortes já estava com um sucesso: “Eu sou um negro gato de arrepiar” ele fez essa primeira musica e ficou todo empolgado “ vou gravar !” Ele era o carregador dos instrumentos do Renato Blue Caps, quando eu fazia mimica e coisa e tal.

1965 inagurou em SP o programa Jovem Guarda. O Carlos Manga era o produtor geral, o meu irmão coordenador. O Roberto Carlos sempre foi muito amigo nosso, íntimo particular desde daquele tempo. Ele convidou meu irmão pra fazer a coordenação geral do programa. Eu carregava os slides do programa. Tinha acabado de nascer meu filho. “O Gersão está duro lá” . Então comecei a fazer umas dublagens, a gente era muito bom, era programa atrás de programa. Tudo em São Paulo. O Rio tava uma decadência, tinha acabado o Jair de Taumaturgo em 63.

Voce morava em São Paulo?

Não eu só ia pra lá. Em 1965 a Jovem Guarda explodiu no Rio. Então reuniram-se eu, Carlos Manga, Roberto Carlos, o patrocinador. Eles falaram, meu irmão falou e eu fui o ultimo a falar. Sugeri o nome “tensão total” e o meu irmão sugeriu “alta tensão” para o programa. O Carlos Manga achou sensacional. Eu adoro o Carlos Manga, não posso nem contar a metade da vida do Manga, senão estamos os dois complicados.

Peguei motivos interplanetários, bailarinas. Essas meninas me ajudaram bastante mas eram duras, os maridões ficavam na porta querendo saber. Eu fiz a parte de coreografia. Tinha que ser limitada, porém graciosa. Deus me deu o dom de fazer graça, eu um negão grandão mas era leve ao mesmo tempo. Nesse mesmo interím tinha o Chacrinha saindo da TV Excelsior. Não existia chacrete ainda. Ele mandou o filho dele lá, nem me lembro qual e ele na ansia de me agradar disse: ““Meu pai quer falar contigo, leva essas meninas lá” O Roberto Carlos e o Manga nao deixaram, mas primeiro foram elas, que não podiam fazer dois programas. Foi quando ele (o Chacrinha) me convidou para fazer as primeiras Chacretes, elas me adoravam. Eu era o bendito fruto entre as mulheres.

SIMONAL, SUPREMES, STEVIE WONDER E JAMES BROWN.

Quando você gravou?

Gravei um compacto. A música se chamava “Não Volto Mais Aqui” de Getúlio Cortes em 1968 no estudio da CBS com quatro canais e fita de duas polegadas. No outro estúdio estava o Tim Maia, gravando, cheirando e fumando todas. Ele tinha chegado dos EUA e andava muito revoltado com esse país, sobretudo por causa do Golpe. Dali eu fui convidado pra fazer um show com o Wilson Simonal. Chamado de “Cabral a Simonal” foi sucesso no Brasil e no exterior. Não havia nada igual no Brasil. O Simonal começava o show e no meio a luz enfraquecia ele saía, e eu entrava a luz ia aumentado, e eu ia andando e imitando o Simonal, e depois entrava o Simonal com a mesma roupa cumprimentando o público. A luz ia aumentando em mim também e o público ficava louco achando que era truque, jogo de espelhos. Fomos para a Venezuela, foi a primeira vez que eu saí do pais. Com esse show viajei o mundo.

O time brasileiro foi usado para promover o governo militar e parece que o Simonal tinha envolvimento com o mesmo governo militar, dedurando os companheiros.

O Simonal me jurou mil vezes que não tinha nenhum envolvimento com os militares. O Simonal foi envolvido, tipo intriga. Eu fiz um showzinho com o Simonal na casa do Costa e Silva. Eu estou querendo defender o Simonal na verdade ele se achava mais do que ele era. Sabe eu aconselho, aos artistas para não se envolverem. Eu procurei não me envolver com política.

Esse show que você fazia com o Simonal foi até que ano?

De 1969 ate 1973, quando eu vim de lá pra começar o movimento Black Rio.

O Tim Maia nessa época já tinha estourado?

Tinha e tinha acabado. O Tim foi sucesso em 70. Nessa época ele começou a fazer as bagunças dele e até foi preso, ele bateu na mulher em 1975. Ele ficou 3 anos preso. Ele tinha muitos problemas.

Você já vestia roupas espalhafatosas?

Foi eu que trouxe essas roupas, e os cabelos crescidos. A gente via muito isso em Nova Iorque, aqui ainda não existia. Quando eu e o Simonal deixamos o cabelo crescer, a gente usava uns pentes de ferro. A gente estava em Los Angeles, fomos a um clube, o César Camargo Mariano entrou nesse clube que se chamava Square ou algo assim. Fiquei abismado com os negros de lá com uns carros muito feios, cor de rosa. Nós entramos nesse clube e fomos olhados de baixo acima, não haviam brancos e o César era branco. Fomos convidados a nos retirar. O Simonal já tinha ido a esse clube da outra vez que ele foi a L.A. Ele entrou lá querendo dar uma canja, e não deixaram. Nós fomos convidados a sair sem sutileza, a maior discriminação. Eles eram negros com muito preconceito e muito feios tambem.

Depois que voce chegou de viagem com o Wilson Simonal, em 1973, o que rolou?

Chegamos aqui, trouxemos uns discos, eu troquei uns discos com o Big Boy ele estava com um programa de muito sucesso na rádio Mundial. Ele me disse que estava com uma idéia: “Porque você não faz uma banda Gerson King Combo?” Nós fizemos o primeiro Baile da Pesada no Canecão em 1973.

Que tipo de pessoas iam no Baile?

Era o negro da Zona Sul, das comunidades Cruzada, Rocinha, Chapéu, muita gente de Botafogo. O baile era domingo à tarde. O Black veio resgatar os negão 15 anos depois. Nos começamos o baile da pesada e o Big Boy botava cada som, James Brown.

Esse público de 1973 já estava usando as roupas iguais as dos americanos?

Já estavam usando, não passava na TV, mas o jornalismo divulgava. A equipe de som era um toca discos e as caixas que traziam de casa. Em 74 o baile foi sucesso total, formavam-se filas e filas na porta do Canecão. Começamos a trazer atrações, começou a dança do negro. As festas eram feitas só com as caixinhas. Foi o Big Boy que começou com dois pratos junto com o know-how que eu trouxe dos EUA.

Por que isso aconteceu no Canecão na área mais rica da cidade e não no subúrbio? 

Por que no subúrbio era muito pobre, muito carente. O negro da Zona Sul já tinha uma graninha a mais. Já usavam aqueles sapatos altos. Nos bailes do Canecão nós fomos trazendo as equipes. Começou a ser criado o movimento no Rio de Janeiro. Foi crescendo daí.

Qual foi a primeira equipe do Rio? E quem a coordenava?

Foi a Soul Gran Prix e quem coordenava era o Dom Filó.

Tocava musica brasileira?

Não. Só música negra. O Filó (de filósofo) era um estudioso da cultura negra. Até tem livros publicados. Existia também a Black Power, só subúrbio. Quem mandava na Zona Sul éramos nós. Ai crescemos com a Furacão 2000, que já era sucesso, foi ele (Rômulo Costa) que criou essas caixas todas, ele era engenheiro. O movimento black foi crescendo, começou o sapato alto vermelho e preto, a cabeleira, eu andava na Rio Branco pra lá e pra cá com aquele cabelão, tirando fotos para promoção. As pessoas pensavam que eu era americano.

Quantos show você fazia? Era playback ou você levava os músicos?

A maioria dos shows eu levava a banda. No auge eu fazia dois, às vezes playback, ficava muito caro pra levar a banda. A produção não pagava pra sobrar mais dinheiro pra eles. As vezes eles não tinham o dinheiro e me pagavam com um carro. Já cheguei a ter oito carros aqui em casa.

Você se lembra quanto era o seu cachê, atualizado?

Uns três a quarto mil dólares por show. Eu tirava uns mil e oitocentos e o resto eu dividia entre a banda.

Você era o único artista brasileiro que se paramentava?

Sim eu era o único. Os blacks tambem se vestiam assim. Eu exportei pra São Paulo. Os blacks de lá vinham pra cá ver, investigar.

Você afirma que o movimento black paulista não existiria sem o carioca?

Positivamente, não existia em SP. A Chick Show uma rapaziada de lá fazia show, levavam artistas bons. Eu inaugurei o Black Sampa, uma cópia das equipes do Rio de Janeiro.

Qual era a média de público?

Dez mil em SP e no Rio de cinco a oito mil

Por que hoje em dia existem em torno de 300 bailes no Rio com uma media de três mil pessoas por baile nos fins de semana? De onde que surgiu esse publico?

Falta de opção, e outra geração. Hoje há mais facilidade. Naquela época as pessoas tinham menos dinheiro. E hoje há outras facilidades, mulher não paga, se chegar ate tal hora não paga ou paga menos.

E a violência?

A violência naquela época não existia. A gente separava as brigas, eu pulava no meio. Nem lá fora tinha briga. O único clube violento era o Bangu, em Rocha Miranda. Tinha mas muito pouco.

Você ouviu falar que algum movimento de esquerda naquela época dentro do movimento negro tipo os Panteras Negras?

Existiu sim. Era um pessoal de esquerda do PT, uma coisa paulista de sindicato. Era uma maneira deles tentarem se infiltrar na massa. Eles vinham com bandeiras, isso foi no final dos anos 70 mas não deu certo, ninguém queria saber de nada.

O período que você encontrou com as Supremes foi o período Simonal?

Foi durante esse período. Eu só sabia falar brother e baby. Conheci a negrada da banda do James Brown também. Foi no mesmo show das Supremes em Porto Rico que eu conheci o Brown.

O seu nome artistico já era King Combo?

Eu era Combo, Gerson Combo. King foi depois do disco, foi o James Brown que me chamou de King.

Onde você encontrou o Stevie Wonder?

Aqui no Brasil. Ele veio visitar a gravadora que lançava os discos dele aqui por volta de 72 por causa da inauguração de um estúdio.

Onde se localizava o estúdio?

Na Avenida Brasil. Eram oito canais e isso era muito para a época. O Stevie Wonder me chamava de Thunder Boy por causa do meu vozeirão, ele ficava me imitando. O Wonder chegou a enxergar!

 

“SOU O REI DO SOUL.”

Você tem um compacto simples gravado em 1966…

Esse compacto foi gravado na Avenida Rio Branco. A música é “É Quente” e “Centauros” do Getulio Cortes. O nome da gravadora é Equipe.

Depois deste compacto você gravou um LP chamado Gerson Combo Brazilian Soul em 1968. De onde veio esta palavra Combo?

De quando eu fiz o primeiro conjunto, o Fórmula 7, quando acabou a Jovem Guarda, eu, o Márcio Montarrôios, o Hélio Delmiro. A gente tocava aquele tipo de som com pistão (trompete). Eu era o crooner. Depois formei o Gerson Combo, que é uma palavra da língua Bantu que significa grupo de cinco ou mais pessoas. Vi Combo em um livro, minha vó falava bantu, ela contava que quando os escravos se reuniam para rezar se chamava Combo. Combo era a reunião para a magia do terreiro. Os meus bisavós eram escravos.

Me conta sobre esse Gerson Combo Brazilian Soul.

Eu já tinha mexido com soul. Só que a dança não existia, não tinha nada. 1967 teve a Turma da Pilantragem que imitava Chris Montez com músicas já conhecidas. Eles fizeram sucesso com “Primavera” do Cassiano. Eu já gravava soul, já cantava soul, um soul brasileiro. Eu era o único que cantava esse estilo. Quando disseram que o Tim Maia era o rei do soul, ai eu dei uma entrevista para o Jornal do Brasil dizendo que eu adorava ele mas ele não era o rei do soul, afinal fui eu que iniciei o soul aqui. Tanto é que o disco esta aí.

Houve alguma interpretação errônea em relação a faixa “Mandamentos Black” ?

Claro que houve mesmo eu cantando “a cor da pureza”. O crítico Tinhorão participava de uma mesa redonda no programa Aroldo de Andrade no rádio. Eu não entendia direito porque ele me acusava. Eu estava em Sao Paulo, me ligaram dizendo que meu filho estava chorando porque estavam falando no rádio que eu estava levando uma bandeira negra aqui nesse país e pessoas como eu deveriam ser crucificadas. Eu não entendi nada, por que têm que ser crucificadas? Eu fiquei muito magoado na época, o Tinhorão era meu amigo. Como não teve muito repercussão, foi tudo balela. Na verdade eu nem ouvi o programa.

Em São Paulo você notou que o movimento era de alguma forma diferente do carioca que por natureza é mais brincalhão?

Os negros paulistas levavam tudo a sério, não eram como os cariocas, lá já teve outra conotação. As equipes lá começaram a dizer que o negro pobre era “sub”. Eu fui lá realmente pra amenizar a situação. O Tornado foi lá, ele era o ídolo deles lá e eu era o idolo aqui. Ele falava a lingua deles lá porque queria se dar bem, foi preso lá inclusive. O Toni é inteligente mas é uma pessoa sem cultura.

Qual foi seu maior sucesso, entre todos?

Foi o primeiro LP, vendeu 200.000 copias, foi disco de ouro. Eu vendi muito um compacto quase 400.000 com uma musica de natal chamada “Jingle Black”.

Como era a União Black?

A União Black foi uma banda que eu criei, mas que não teve grande projeção

Como o movimento black acabou no Rio?

Com o advento da discoteque. A minha geração tinha crescido mas não engolia a discoteque, dançar bonitinho. As boites da Zona Sul só tocavam isso. Sobreviveu por uns cinco anos. Começou em 82 e o movimento definitivamente acabou em 1983. Acabaram-se os bailes, foram ficando fracos. Em 85 já não se falava mais. O Romulo da Furacão viajou muito pelo Brasil e resistiu. Depois disso veio o Rock in Rio, começou a fase do rock brasileiro.

Teus antigos empresários te enganavam? Eles estão bem hoje em dia, ou já saíram da cena?

Eles continuam. O Rômulo Costa também me explorou. Me dava uma merreca e eu ainda tinha que pagar a banda. Não havia essa estrutura de hoje.

O Tim Maia passou para posteridade como um artista popular, que a elite conhece, sabe quem é. O Gerson King Combo, não. O Gerson é um artista popular, das massas, que não passou pra posteridade. Por que isso? Você ficou muito preso a um movimento?

O Tim Maia foi pra Globo, eu fiquei preso ao movimento, às idéias, à coisa social. O Tim Maia fez um disco em 70 que ficou pra prosperidade. Eu não fiz esse disco. Se eu tivesse feito a metade das bagunças que o Tim Maia fez eu estaria mal.