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O BONDINHO

O Bondinho – Organização: Miguel Jost e Sergio Cohn – Editora Azougue – 360 páginas.

Imprensa alternativa dos anos 1970
Capa do livro O BONDINHO

Quando se fala em imprensa underground brasileira nos anos 70, nos referimos aos veículos  com pretensões libertárias que penavam em sua sina de expressão “imprensada” entre a sola e o cassetete do Ato institucional número 5, o famoso ato “nada pode” (no futuro, os próximos Atos aprimorariam a insânia desse quinto).

Os dois grandes veículos impressos da época que vêm à mente, sempre que se fala em underground são os cariocas O Pasquim (um underground com ares Ipanemenses e a nata da intelectualidade) e o jornal Rolling Stone,  o famoso pasquim do rock and roll e derivativos (na verdade uma edição desautorizada pela matriz que cá na Tropicália, durou alguns bons anos que não chegaram a cinco). Mas como chamar de underground um jornal como o Bondinho que chegou a vender 50 mil cópias de uma única edição?

E o que representava esse “Jornalismo cultural, livre e independente” do Bondinho, um dos vários veículos da época tais como Flor do Mal, Jornal de Amenidades, Presença e O Verbo?

Como explica Miguel Jost, um dos organizadores dessa edição em livro “o Bondinho foi publicado pela primeira vez em outubro de 1970 e inicialmente era um guia de informações sobre a cidade de São Paulo distribuído pela rede de supermercados Pâo de Açúcar. Após pouco mais de um ano e 30 números sob estas condições, a revista se tornou independente, passou a ser distribuída em bancas de outras cidades e modificou radicalmente sua proposta editorial. Nos 13 números (isso mesmo, o Bondinho circulou livre em 13 edições para depois se calar em uma dessas garagens da vida) que se seguiram a esse movimento, o Bondinho desenhou um importante retrato da cultura brasileira do início da década de 1970.” E não há a mínima dúvida sob o último comentário. Muito se diz sob a falta de memória do povo da terra de Macunaíma, coisa até enraizada nas atitudes. O preservacionismo é um fenômeno tão recente em nossa aldeia, que a maior parte dos arquivos das TVs dos anos 60 foram apagados para reutilizarem as fitas com novas gravações. Parece incrível, mas era o que ocorria. E segundo o próprio Jost, graças ao indivíduo Elísio Brandão, que possuía as edições desse Bonde perfeitamente conservadas, foi possível (re)fazer esse livro com linda capa e conteúdo da maior relevância. O que seria da memória de todos se não fosse a memória de um?, fica a pergunta tanajura.

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Jost continua: “A intimidade com que as entrevistas corriam é uma característica ímpar do Bondinho. Não era raro que seus repórteres passassem alguns dias frequentando até mesmo a casa desses entrevistados”. 70 à pampa, bicho. Mas muito bacana, sabe? Na boa. As entrevistas escolhidas a dedo (as mais releventes para o público de hoje é óbvio) e listadas em ordem cronológica somatizam tons de discernimento intelectual e viagem fantástica ao mundo do impossível da década de setenta. De atores a músicos estão listados de janeiro a maio de 1972 entrevistas com Tom Zé, Chico Buarque, os Mutantes (na maior parte, um tremendo papo furado de quem tinha fumado “um”), o guitarrista Lanny Gordin (nascido em Xangai na China, filho de um russo com uma polonesa), o maestro Rogério Duprat, Caetano, Gil, Gal e Bethânia, o ator Walmor Chagas, os Novos Baianos, Luiz Gonzaga o rei do baião, Milton Nascimento e muitos outros.

Bananas
Tropicalismo: Miranda e Veloso.

Os termos e gírias foram preservados nesta reedição do Bondinho para que a refeição não perdesse o paladar. Parte fundamental do processo.  E durante vários momentos mágicos, entre palavras expelidas em meio à insights poderosos, percebi como estudante curioso das coisas humanas, que pensamentos ditos naquela época só foram se tornar realidade para a maioria das pessoas, das futuras gerações, às vezes duas décadas depois. O ritmo do Brasil parece ser um, mais lento, em marcha lenta e o dos artistas mais acelerado. E logo no Brasil, onde era (e é) comum se chamar artista de bicha, maconheiro, exatamente porque quem xinga não quer parar para pensar sobre a sua própria vida, ninguém quer compreender nada. Aí ofende. É mais fácil chamar o sujeito de maluco do que estender-lhe a mão e a consciência. Há alguns momentos (se não todos) absolutamente impagáveis em O Bondinho. Se fala sobre tudo, entremeado é claro, com muito papo cabeça, coisa de gente antenada com seu tempo. Fala-se bastante sobre conscientização política, ou há sempre uma palavra bem escolhida para se desculpar por não se estender sobre o assunto. A questão do exílio e a ditadura em si, nunca é dita abertamente. Como se houvesse a necessidade de esquecer e perdoar (e logo em 1972! Muita água ainda iria rolar por baixo dessa ponte) como o próprio Gilberto Gil diz logo no início de sua entrevista: “Eu não trabalho com mágoa, meu irmão. Aprendi isso… que a gente não pode ser paternalista…” Mas Gilberto Gil fala, entre delírios de artista desconstruído, e vai direto ao assunto na mais reveladora e alucinada entrevista à bordo de todo o livro.

Chico Buarque prefere cambiar a palavra ditadura por censura. Para bom entendedor, meia palavra “dita” basta. E êita, palavra dura de ler e ouvir.  Essas passagens e respostas abaixo, escolhidas a dedo, são um prazer atemporal, infinito e único. Se conseguirmos nos colocar no mesmo tempo-espaço dos entrevistados, descobriremos que o país, o mundo do pau Brasil pouco mudou, que nossas angústias ainda são meramente comuns, que o ser ainda é humano.

REFLEXÕES.

Tom Zé (janeiro de 1972) – A entrevista marca o momento em que se considerava o baiano de Irará “sumido”, por estar ausente das TVs durante mais de um ano. Ele retornou à baila através do Movimento de Incentivo à MPB no programa da Hebe Camargo e o papo que rola, marca esse momento o aparentemente distante estouro em 1968.

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“Sou incapaz de ler qualquer poeta”, “o futuro da família brasileira é um hálito puro”, “um dos melhores pratos criativos que se pode comer, hoje, na arte brasileira, é o prato da publicidade”, “nunca pense que você já conhece tudo onde a estupidez pode chegar: ela sempre pode surpreendê-lo!”.

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Chico Buarque (janeiro de 72) – A entrevista nasceu de dois encontros: um antes de um show no Canecão no Rio e outra em seu apartamento no dia seguinte, tomando “Fernet e cerveja”. Buarque parece receoso com as palavras ditas, após ter retornado do exílio italiano, talvez temeroso com as conseqüências.

“Estava na proporção de duas músicas censuradas em três”, “no Samba de Orly foi censurada uma frase: “pede perdão pela duração desta temporada”, “ou fazia meu trabalho, ou então realmente parava e partia pra outro negócio”, “A censura está indo muito longe do que uma censura política, não sei. Talvez fosse bom, pegasse a subversão, vamos lá; mas não, já transcende isso”, “Não pode dizer que não pode falar. Pra mim é tão absurdo como amanhã não poder falar: “eu te amo.”, “eu não tenho nada interessante pra dizer”, “tem duas maneiras de ser indesejável em um lugar: ou te dizem claramente ou te mandam um indireto”, “eu te digo, há muito mais raiva do Gil que do Caetano… Você vê na cara de um e entende por quê. Pela cara, pela atitude, pela narina, pela cabeça do Gil”, “minha música não é música para elite”, “se alguém me faz subversivo é a própria censura”, “eu não sou tecnicamente um bom compositor”, “o jovem de hoje, ao contrário dos jovens do meu tempo, procura na coisa internacional, uma coisa modelo inglês, ou modelo não sei o quê, uma libertação que aqui não existe”, “eu adoro samba, mas não posso ficar propagando isso por aí não, viu? Senão, vão me confundir com o Plínio Salgado”, “a melhor coisa que se pode fazer é ser hippie, porra”, “o cara que tem dois anos a menos que eu, 3, 4, 5 anos, sabe que eu sou uma merda mesmo, eu e toda a minha geração. Então o que vão querer? Se identificar com o irmão mais velho? Não! Vão querer saber do primo que mora em Liverpool – que é uma cidade horrorosa…”, “A Europa é tão velha, tão escrota, tão podre. Aquilo não tem remédio, não. A Itália não tem remédio, não tem, não adianta”.

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Mutantes (janeiro de 72) – “a música que a gente faz não é a música de consumo” (Arnaldo), “a gente ouve Debussy e vê que, em relação ao clássico antigo, ele era um cara muito louco, muito louco mesmo” (Arnaldo), “atualmente, o que é mais novo é o rock and roll – um negócio já velho” (Arnaldo), “ficar só fazendo som em estúdio não acho bom” (Ritta com dois Ts mesmo), “E esse barato das crianças voadoras?” (Sérgio), “Nós estamos a fim de ir para a Inglaterra e comprar um moinho perto de Londres” (Arnaldo), “a dona Selma da censura é uma mulher simpática, muito mais legal do que eu esperava” (Sérgio), “eles invocaram com a palavra caspa da letra de Cabeludo Patriota – que mudamos (o nome) para A Hora e a Vez do Cabelo Crescer – porque acharam plasticamente feio” (Arnaldo), “nós não tamos a fim de nos meter em política” (Arnaldo), “o barato legal é o Chacrinha e não o Sílvio Santos” (Arnaldo), “há dois conjuntos no Brasil: os Mutantes e os Incríveis” (Arnaldo), “todo mundo tá sabendo que o Gil e o Caetano não vão voltar a ser o que eram” (Arnaldo)

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Caetano Veloso (fevereiro de 72) – “O primeiro cara que fez o trio elétrico, também de certa forma, inventou a guitarra elétrica, que já existia nos Estados Unidos mas não existia no Brasil…isso criou um estilo de carnaval na Bahia que se tornasse essa coisa triste que é o carnaval do Rio, essa coisa ainda bonita, mas melancólica: exatamente a conservação de uma expressão do passado.”

“Aquela marcha que eu fiz, “Deixa Sangrar”. É apenas uma frase. É de uma música dos Rolling Stones chamada Let it Bleed, que por sua vez é uma piada sobre a música dos Beatles, que se chama Let it Be. Bom, não foi por acaso que eu coloquei essa frase numa música de carnaval. Foi porque, vendo os espetáculos dos Rolling Stones, e vendo Mick Jagger em cena, vi muito claramente que o que ali se busca o que a gente vê aqui no carnaval. Mas eu não quero dizer que seja somente uma coisa dionisíaca de você pular, gritar, de homem se vestir de mulher. É de ter tudo, porque isso é uma coisa absolutamente maravilhosa: quando chega o carnaval, de uma certa forma, tudo pode acontecer.”

“Todo esse pessoal inglês, tanto os Beatles como os Rolling Stones, e  também a juventude americana, foi encontrar vitalidade, sem dúvida nenhuma, numa forma negra de expressão, ou seja, no blues.”

“Hoje eu estava ouvindo Carmem Miranda cantando: “Adão, meu querido Adão, a serpente me enganou e o nosso Mestre do Paraíso nos expulsou”. Carmem, cantando com todo aquele ritmo de música que é feita para dançar e pular na rua, tem o ar mais debochado possível e não há nada de mais profundo e sério, e mais terrível, que a frase que ela está dizendo. Isso está no carnaval brasileiro, nos Rolling Stones e no blues.”

“Me lembro em Santo Amaro, senhores que o ano inteiro estão atendendo no balcão e tal, com filhos de 18 anos, não sei o quê: chega o carnaval, botavam brincos, batom, saíam rebolando na rua, pintavam o diabo. Isso é muito simples, mas é muito profundo, também. Acho que o carnaval interessa por isso. Agora, eu não quero discutir o negócio da convenção ser de três dias: e depois, saber em que medida essa explosão pode se generalizar, pode se estender para o ano inteiro. Eu não tenho nenhuma proposta política a fazer sobre o assunto. Não é omissão, não. Não é, também, que o carnaval sugira uma sociedade ideal, não. O carnaval, nesta sociedade real, desempenha um papel fundamental. Terapia, também. É estética. É uma força cega, pode ser política.”

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Em contraposição a Chico, Gilberto Gil que foi exilado mesmo (junto a Caetano) fala claramente sobre a pressão e a posterior detenção e expulsão do país. Talvez, essas raízes do inconformismo, tão explicitadas nesta entrevista, o tenham levado à política décadas depois (fevereiro de 72).

“…Essa idéia do sonho acabou (do Lennon)…bom, eu comecei a fazer a letra em Glastonbury, no último festival que houve na Inglaterra em junho, dia 21 de junho de 1971, o dia de solstício de verão que é o dia mais longo do ano, é o dia que o sol vai mais alto, e era o dia exatamente que em Glastonbury  se comemora o dia da fertilidade, no sentido ancestral da cultura, dos costumes ingleses. Inclusive esse vale foi escolhido porque é onde fica o Thor, monumento que fica numa montanha construída, uma montanha artificial. Esse monumento foi posto na linha do vale, que faz justamente no dia de solstício uma linha que vai direto até a pedra de Stonehenge, onde o sol se concentra naquele meio de pedra, e forma uma linha de força de energia que fertiliza toda a região, dentro do sentido da ligação, vamos dizer, mística, com a coisa cósmica, na visão dos antigos povos da ilha, ta entendendo? E foi o último também que a gente foi, tava o grupo todo, foi a turma toda. Eu, o Caetano, Dedé, Sandra, Macalé, Giselda, o Glauber Rocha, o Júlio Bressane, o Rogério Sganzerla, Helena Ignês, Tini, Nina, Moacir, Áureo e… sei lá rapaz, mais uns 40 brasileiros. E realmente no dia 21 de junho a gente sentiu o sol batendo, e a linha de força, as vibrações, tudo, era realmente um negócio muito forte, era um festival de música pop, era o último que tava se fazendo na Inglaterra. Havia aquela coisa toda, foi logo depois da entrevista do John Lennon falando que o sonho tinha acabado, daquela entrevista que o Caetano tinha feito para a revista Veja, onde ele falava de tudo isso.”

“Eu para falar que o sonho acabou, no sentido todo de que a música pop tinha chegado a um fechamento de ciclo e etc, era preciso que eu estivesse achando mesmo, acreditando mesmo. Eu não ia dizer assim de graça, porque John Lennon tava dizendo. Eu concordava com ele, a visão dele era perfeita, um dia inclusive eu tava conversando com Caetano, que disse:  “É claro Gil, acabou pra ele, né?” Eu disse “lógico, acabou para ele, quando acabar para mim, eu falo”.”

“O fim do tropicalismo foi uma coisa do destino. De repente a gente teve que parar o trabalho, a gente foi preso, teve que sair do país.”

“Eu cheguei no Recife, fui fazer um show no Teatro Popular do Nordeste. Fiquei lá um mês e o pessoal em Recife tinha muito aquela coisa de cultura popular, naquela época era uma coisa bem viva pro pessoal universitário, tudo o mais eles tinham essa preocupação com folclore. Então eles achavam que eu era um dos artistas brasileiros interessados naquela coisa,  então eles faziam questão de levar, de gravar ciranda pra mim, me levar pra ver a Banda de Pífaro em Caruaru. Eu chorei, fiquei emocionado, de ver aquela coisa tremenda. Então eu voltei do Recife para o Rio com a certeza de que alguma coisa tinha de ser feita em termos de movimento, em termos de integração daquelas necessidades que eu achava que já existiam no universitário brasileiro, ali… Onde Recife é bem um exemplo, cê ta entendendo? Foi uma porrada que eu tomei lá e que me fez vir tomar outra no Rio, ta entendendo? Quando eu comecei a reunir o pessoal, par ver o que a gente fazia… isso foi em 1967, pouco antes do Festival de Domingo no parque, de Alegria, Alegria. Então nessa tentativa de reunir o pessoal nada deu certo. Chico inclusive fala, sem citar a época, mas ele fala na entrevista à vocês, onde se tentava reunir o pessoal, então chegava um bêbado, outro chegava tarde, outro tinha que sair… os outros não concordavam com nada daquilo. E eu com aquela ilusão de tentar reunir o pessoal.  Na verdade era uma atitude minha, era reflexo de uma má consciência política, tentando misturar tudo com aquela confusão na cabeça de música de protesto, aquela coisa toda de música participante, não sei quê. Foi uma época em que eu estava realmente muito confuso. Muito por fora, cê ta entendendo? Mas também me desencantei logo, tudo ficou logo muito claro que não dava certo, aí fiz “Domingo no Parque”, fiz o “Frevo Rasgado”, fui aproveitar eu mesmo o material que tinha conseguido em Recife.”

“A gente foi para a (TV) Tupi fazer o (programa) Divino Maravilhoso, ainda a gente foi com aquela disposição de oferecer o melhor, do sentimento, da vibração anterior da gente. Mas no fim a gente já estava quase desprovido dessa coisa, porque aí já estava terrível, a opinião pública toda dividida, prefeitos de algumas cidades do interior fazendo abaixo-assinados para a TV Tupi cortar o programa da gente. Ou seja, você começa a sentir que você ta marginal, que você está sendo visto como uma coisa monstruosa, como um câncer, e a imagem do câncer pra mim é uma coisa deprimente.”

“… uma moça me entrevistando em Londres há pouco tempo, pra (revista) Manchete, me perguntou sobre a intencionalidade da violência, se a gente não tinha realmente intenção… ou seja, não era sádica a nossa atitude, ou masoquista. Não era sádica em relação ao público, no sentido de “ta, não está entendendo a gente? Então vamos aumentar a dose, vamos fazer pior ainda, no sentido de vocês não entenderem mais”. Também não era masoquista no sentido de “vamo ser sofredor, incompreendido”. Não era, era um misto de todas as coisas, era paranóia, todas essas coisas. Uma coisa muito difícil de analisar, no sentido de encontrar o órgão doente, cê ta entendendo? A doença estava no corpo inteiro.”

“Eu era visto como uma figura demoníaca, mefistofélica, com aquele bigode, aquela barba.”

“Londres é roxo e verde. Essas duas cores são muito o símbolo da coisa londrina, roxo… Roxo, rapaz! Roxo que no Brasil é símbolo de luto, cê tá entendendo?  Roxo é cor de caixão de defunto. Na Inglaterra, roxo é como vermelho é aqui. Uma cor bonita, que combina com o acinzentado que eles têm na alma, uma cor meio desmaiada.”

Gil: “Pra mim, pop era uma coisa urbana, cê tá entendendo?”

Repórter: “Coisa asfáltica…”

Gil: “É… coisa concrética, era muito isso.”

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Jards Macalé (fevereiro de 72)

“Por que esse negócio de “artistas”? Porra, quando é que vão acabar com isso? São pessoas trabalhando, bicho, e a barra é pesada.”

“Esse negócio começou quando a gente tava fazendo o show em São Paulo. Era um show muito violento, muito estranho. A ornamentação do palco era toda de isopor branco. Na primeira parte, eu cantava; na segunda, Gal (Costa) cantava. No sentido de trabalho era fantástico; agora, no sentido comercial, era muito violento e não dava resultado. O pessoal ia lá, olhava pra minha cara e ficava meio assim…Depois, quando nós voltamos pro Rio, eu tinha feito “Gotham City”, com Capim. E Rogério Duprat fez um arranjo que, no final, a orquestra tinha que ficar louca, completamente esquizofrênica. O maestro Tavares – que ia reger – ficou puto. Ele tava levando a sério mas quando viu que a gente tava cantando aos berros, se recusou a reger.”

“Decidi que daqui pra frente, durante seis anos da minha vida, eu vou passar os verões aqui trabalhando, dou uns concertos, gravo um disco e vou viajar pelo mundo. Esse ano vou pro Norte com a minha maquininha super 8. Vou lá, filmo tudo e recolho todo o material. No próximo ano a mesma coisa. Primeiro vou pros Estados Unidos, olhar o Império antes que ele acabe. No outro ano vou pra América Central, volto de novo e vou pra Ásia, depois pra África, e vou ver o que vai sobrar do mundo. Eu vou por aí me informando, meu irmão, vivendo, que a vida é uma só. Uma nova realidade se apresenta: é preciso apreendê-la.”