Arquivo da categoria: Matérias

Ziraldo e a turma do pererê

Li um anúncio pago do facebook sobre o filme A Turma do Pererê.doc a respeito da obra do cartunista Ziraldo. Mas ao reler com atenção, percebi não ser uma película sobre a vida do artista, mas sobre uma obra em particular: A Turma do Pererê, a primeira revista colorida de quadrinhos de um autor brasileiro, que nasceu com o conturbado governo do Presidente João Goulart e que foi “acabada” um mês antes do golpe militar de 1964. Tenho lembranças fortes sobre a versão da Turma do Pererê reeditada – com capa dura – na década de 1970. Comprei, não entendi nada – assumo –, mas o cheiro do papel, o traçado único, os temas nacionais e as cores fortes (sem contar as psicodélicas onomatopéias) me marcaram profundamente. E já escrevi aqui antes, que apesar de adorar Neil Adams, Joe Kubert e Jack Kirby, nunca gostei de super heróis. Então, personagens que protegiam a natureza ou que batiam em Romanos me pareciam mais interessantes – e eu nem sabia o que era ecologia ou imperialismo…

Curiosamente, o documentário aborda um tema interessantíssimo: a dicotomia entre Ziraldo e Maurício de Sousa. O segundo, ainda desconhecido, veio ao Rio nos anos 1960 pedir ajuda ao Ziraldo que recomendou-lhe redesenhar 4 tirinhas do Pererê. Os desenhos foram feitos, o que não deu em nada. Quando Sousa voltou para São Paulo recebeu um baita esculacho da esposa porque havia perdido o nascimento de sua filha Mônica! Décadas passadas, todo mundo conhece a Mônica e quase ninguém conhece a Turma do Pererê – apesar das temporadas exibidas pela antiga TV Brasil em 2002 e 2004.

E sobre esse assunto, arte “que pega ou não”, li aqui mesmo no facebook que um dos artistas que já trabalhou com Ziraldo reclamou – no bom sentido, creio – que infelizmente o mineiro de Caratinga nunca foi capitalista como o Maurício. A Turma do Pererê pode não ter “dado certo” para alguns que só crêem no palpável, mas em minha alma e na de muitos, deu certo demais. E como deu!

Sou da geração que conheceu o Saci nas obras de Monteiro Lobato e que assistiu nos anos 1970, o Sítio do Picapau Amarelo na TV. Era um personagem do mato que adorava confundir as pessoas, fazê-las se perder… Mas o Saci de Ziraldo era bem diferente. Além de ser mais consciente, ele tinha uma perna no meio do corpo! E engraçado como eu via isso no desenho, mas não entendia! O Saci da Mata do Fundão de Ziraldo, corria muito, tanto que andava dentro de um tornado!

Hoje, com a carcaça “mais dura”, entendo bem que há arte para massas e “outra” para quem consegue entendê-la – sempre a minoria. Ziraldo era considerado comunista em 1964 e foi perseguido até que ao se juntar à galera do Pasquim aconteceu o inevitável: cadeia. Mas alguém sabe o nome de quem o prendeu? Esse já foi para a lata de lixo da história, mas Ziraldo, artista supimpa e supremo, não.

Dois adendos:

No primeiro parágrafo escrevi sobre ir ao cinema assistir Ziraldo. Fui, gostei do filme, mas é importante acrescentar que havia 4 pessoas na sala…

Ainda tenho algumas poucas revistas sobreviventes da década de 1970 e uma delas é uma Mad especial preto e branca que vinha com uma reprodução colorida da Mad dos anos 1950 encartada. Nas páginas centrais preto e brancas há os cartuns de um artista brasileiro – apelidado de “brazilian nut”… É fácil saber quem é.

A Turma do Pererê.doc. Direção de Ricardo Favilla para a O2 Play Docs, produtora cuja intenção é lançar mensalmente um filme brasileiro em 20 cinemas selecionados.

Cartas, Política e Copacabana.

Cartas sempre fizeram parte da história política do Brasil.

Na República Velha, a carta que nunca foi escrita pelo candidato à presidência Artur Bernardes contra os militares e no Estado Novo, o Plano Cohen: a carta de “comunistas” que deporiam o governo Vargas, escrita pelo integralista e capitão Olímpio Mourão Filho, o mesmo do golpe de 1964!

Carta falsa atribuída ao candidato Artur Bernardes – que deflagrou uma crise militar

A introdução se faz necessária porque preciso confessar que conheço o autor da carta promovida dia 17 de maio de 2019, por aquele que se diz Presidente.

No início da década de 2000, ensaiávamos em um estúdio em Copacabana, Rio de Janeiro ao lado de uma das mais significativas ruas da cidade, Prado Júnior, com “gente de bem” entre prostitutas, michês e viciados. O estúdio se localizava em um prédio pequeno com elevador claudicante, academia de artes marciais, igreja evangélica, costureiras e apartamentos para a prostituição.

O gerente da casa de prostituição, porta a porta com o estúdio, gostava da nossa banda Mustang e assistia aos nossos ensaios. Certa vez, de manhã, enquanto ensaiávamos, o gerente ficou esfregando um pênis de borracha na janela acústica do estúdio. O baterista, rindo sem parar, me chamou a atenção e eu fiquei de cara. Essa é a boa recordação daqueles tempos.

A má lembrança é que o irmão do dono do estúdio é o autor da carta divulgada por aquele que se diz Presidente em 17 de maio de 2019.

Escrita por um guitarrista de rock, o que me fez refletir, mais uma vez, sobre dissociação cognitiva e incompreensão da realidade. Naquela época, há 15 anos, ou mais, eu nunca desconfiaria que um músico de rock pudesse ser fascista, reaça ou de direita! Que ingênuo eu era… Uma carta que reflete e me relembra do pior do bairro de Copacabana, e o pior do Brasil. E o pior das pessoas.

Reflexão sobre carta golpista difundida em 17 de maio de 2019.
Meninas gritam por: 1 – Jesus; 2 – Beatles; 3 – Hitler.

Admiro a liberdade de Copacabana, para uns libertinagem, e nesse bairro, esbarrei com pessoas maravilhosas como Elke Maravilha, Leonel Brizola, Clóvis Bornay e Jane Di Castro.

Elke Maravilha (IMS)

Mas também presenciei muita coisa estranha na Princesinha do Mar… Recentemente, vi um arrastão testemunhado por policiais que nada fizeram (“não é problema nosso”) e li na imprensa sobre um lutador de academia que atirou em um morador de rua; sobre idosos que atearam fogo em outro mendigo; sobre idosas vendendo drogas em casa e uma tabacaria de rua que negociava drogas pra geral… Um espelho do Brasil.

A carta, e o que se diz Presidente, passarão. São lixo da história. Copacabana continuará entre plumas, paetês e balas perdidas – e encontradas.

Livro Mil Shows do Melvin.

Estrada – Mil Shows do Melvin – 354 páginas  (Independente – 2019).

Estrada é a biografia de um jovem músico brasileiro, carioca descendente de portugueses, que adotou o rock alternativo (termo recorrente nos anos 90) como linguagem para se inserir neste mundo.

Mas, em primeiro lugar é preciso alertar ao leitor que não existe esse tal de Melvin! Se ele assinar cheques com esse nome, desconfiem. Melvin sempre será o nosso Miguel, o eterno jovem candidato a “rocker” que estudava no colégio Santo Agostinho no Rio de Janeiro nos anos 90, ou na mesma sala, não me recordo, de uma vizinha do andar de cima do meu prédio. Fui o seu professor de música, guitarra ou baixo, há tempos inconfessáveis. Conversamos muito, e quando precisei, ele se prontificou a me ajudar nas fileiras das bandas Usina Le Blond e Mustang.  

Não há como medir a relevância do Miguel para a cena carioca de rock e da música alternativa nacional a partir dos anos 90. Ele sonhou, fez por onde, batalhou, investiu dinheiro, tempo, e ainda escreve, literalmente em um livro, uma inspiradora história de sobrevivência e foco. Ele é do rock, como se diz, mas Miguel é mais do que isso. Ele também é funk, samba, discotecagem (ainda existe esse termo?), e batucada. Consciente, aprendeu desde cedo que para tudo nesta vida é preciso de alguma política para fazer a roda girar. E assim, iniciado nas artes ocultas, além de fundar o Carbona, – “bubble-gum” como ele gostava de alcunhar -, Miguel tocou em e com várias bandas durante décadas. Sendo que o seu maior talento é que ele sempre se mostrou disposto a aprender. Aprender para ensinar.

Conversamos sobre este livro há alguns meses, antes mesmo do lançamento, e o papo rolou sobre “passar a tocha”… Mesmo que na maioria dos casos, isso não seja possível. Mas é necessário acreditar. Nem que seja um pouquinho.

Há várias passagens em Mil Shows do Melvin, – financiado por uma campanha -, que mostram um pouco da alma desse homem-menino que participou, mesmo, de mais de mil shows neste pedaço de chão chamado Brasil e em vários outros países. Miguel rodou muita estrada, enfrentou dificuldades, teve tantas alegrias quanto, e soube esperar e agir. Sim, não é fácil. Mas para isso é preciso mais do que boa vontade. Mesclam-se estrutura emocional e financeira, um pouco de coragem, bons relacionamentos, ingenuidade, oportunidades e muita sorte. Não necessariamente nessa ordem…

O livro Estrada é um diário de viagens com descrição de personagens e bastidores. Há passagens deliciosas (que não devo compartilhar porque seria bullying!) como a de ter tocado com os Buzzcocks e de ter se apresentado no CBGB. Há a história do anão (ladrão!), Los Hermanos, Autoramas, Dictators, Marky Ramone, a peça-ópera-rock Hedwig (que adoro até hoje), Monobloco, etc, etc, etc e etc. E nada menos do que isso.

Se há algum pecado no livro – se há – é o de “fazer” sugerir que todo mundo pode ser capaz de percorrer a mesma trajetória. Livros e biografias inspiram, mas não apresentam soluções. A vida ensina. Diariamente. Podemos conciliar algumas ideias, cruzar alguns caminhos, mas não há uma determinante que afirme que isso ou aquilo “dará certo”. Dar certo é ser, fazer. Seja para 5 ou 5 mil. E nesse quesito, Miguel – ou Melvin – tem sido muito bem sucedido. E que haja mais estradas para que os sonhos desse jovem-homem se transformem em mais realidades! Vai, Miguel! vai!

“A vida aqui no Brasil é feia – oh, muito feia.”

Esta declaração foi feita por Sarah Bernhardt (Henriette-Rosine Bernard, nascida em 22 ou 23/10/1844 e desencarnada em 26/3/1923), considerada a maior atriz do século XIX.

Sarah, a rainha do drama.

Bernhardt esteve no Brasil três vezes, exatamente em 1886, 1893 e 1905. Do Império à República. Porém, o país não fez parte de suas melhores memórias como a diva registrou em suas cartas. Além de atriz, a dama era uma empresária teatral que percebeu a necessidade de atingir novos mercados. O Brasil, escolhido para ser o ponto de partida da segunda tournê às Américas, recebeu-a no auge, com 42 anos. A atriz desembarcou no porto do Rio de Janeiro no dia 27 de maio de 1886 do navio Cotopaxi. Intelectuais e estudantes a tietaram e recepcionaram, entre eles o dramaturgo Artur Azevedo.

O primeiro relato da atriz ao amigo Raoul Ponchon diz muito: “Finalmente aqui estou, depois de 22 dias no mar. Que viagem esplêndida, que país maravilhoso! (…) Mas a cada alegria corresponde uma tristeza. Se o país é extraordinário, o clima é terrível. A fabulosa vegetação se deve ao calor extremo e à medonha umidade (…) Todo mundo anda meio doente…”.

“Pour quoi suis-je venu ici?”

Sarah Bernhardt se apresentou no Imperial Teatro de São Pedro de Alcântara, no Rossio, atual praça Tiradentes. O Imperador D. Pedro II (conhecido como o “monarca teatreiro”) compareceu a todas as apresentações e não escapou à análise sarcástica da francesa: “O imperador do Brasil parece que é pobre demais para comprar uma assinatura. Toda noite chega no teatro numa carruagem puxada por quatro mulas ofegantes. E que carruagem! Tão absurda quanto seus guardas esfarrapados. Esses galantes brasileiros parecem que estão sempre brincando. Brincam de construir casa, de abrir estradas, de apagar incêndios, de ser entusiásticos”.

E não para por aí. Sarah reclama dos “ladrões sanguinários”; do teatro de luzes fracas e com “camundongos por toda a parte”. Mas caro leitor, não acredite que só a diva é quem reclamava. Os brazucas também colocavam as barbas de molho.

O dramaturgo e jornalista R. Magalhães Júnior escreveu que a companhia de Sarah trouxe “cenários paupérrimos”. E como se não bastasse, o ator Philippe Garnier, que interpretava o seu par romântico na peça “A Dama das Camélias” (de Alexandre Dumas Filho) entrou no palco sem os bigodes – o símbolo da “varonilidade” do personagem Armand Duval. Os estudantes gritaram “Fora com o canastrão!”, antes de ensaiar uma vaia, além de atirarem pontas de cigarro, quase incendiando o vestido de uma dama na platéia. O tal fã, descrito no início da matéria, o dramaturgo Artur Azevedo, se ergueu para defendê-la: “É assim que vocês querem apresentar o Brasil no exterior?”. Os estudantes se acalmaram, Garnier retornou com os nervos à flor da pele e Sarah, acuada, deu o máximo de si, arrancando aplausos frenéticos da platéia. Na sequência, outros problemas ocorreram: Martha Noirmont, uma atriz de sua companhia a acusou de agressão e Maurice, o filho de Sarah, de 21 anos, apanhou no saguão do hotel por ter “dirigido gracejos com desembaraço parisiense” às donzelas. Segundo a mãe do rapaz, foi uma “tentativa de homicídio”.

Cleópatra.

Segunda visita.

Dessa vez, a atriz alugou um palacete em Botafogo, na zona sul da cidade, e contratou vários empregados, que deveriam falar francês. Mesmo com tais antecendentes (o conhecimento da língua) a patroa descobriu que estava sendo roubada! Sumiram jóias no valor de 250 mil francos, além de três maços de notas de liras contabilizando o total de 189 mil. A polícia prendeu geral e achou dois contraventores: um francês e um espanhol, nenhum brasileiro. Mas nada do material roubado. O chefe da “poliçada” carioca comentou à época que o roubo talvez fizesse parte de uma estratégia da atriz para atrair mais atenção e público às suas peças.

Jesus na cruz…

Adicione-se a tudo isso que um crítico brasileiro escreveu que a atriz, já com 49 anos, estava um tanto “velhota” e chamou-a textualmente de “múmia”. E quem surgiu para defendê-la? Artur Azevedo! 

Durante a partida do navio Sénegal, no qual Bernhardt deixava a capital federal, estourou uma rebelião na Marinha chefiada pelo contra-almirante Wanderkolk, dois meses antes da famosa Revolta da Armada contra o governo de Floriano Peixoto. O mastro da embarcação de Sarah foi atingido por uma bala perdida. Um longo artigo no jornal parisiense Le Figaro escreveu que a atriz “nunca mais poria os pés no Brasil”. Mas adivinhem o que aconteceu?

“yeux dans les yeux.”

Terceiro tempo.

Em 1905, o Brasil já era uma República e cá Sarah se encontrava novamente porque estava quebrada, sem um tostão. E percebam a delicadeza da situação: Bernhardt teria que enfrentar o público de quem ela havia falado tão mal no Figaro. Para complicar, a atriz sentia fortes dores no joelho direito, devido às diversas vezes (30 por espetáculo) em que se jogava no chão interpretando Joanna d´Arc. Os biógrafos dizem que em Buenos Aires formou-se um abscesso que necessitou de uma intervenção cirúrgica. Três meses depois da capital portenha, a francesa estava de volta ao Rio. E quem levantou-se no primeiro e segundo atos de La Sorcière de Victorien Sardou pedindo clemência à platéia que a espezinhava por causa das críticas feitas ao país, anos antes? Nem citarei o nome do defensor perpétuo para não parecer perseguição… E mais uma vez, o público terminou aplaudindo-a de pé.

A atriz Sarah Bernhardt e o Brasil.
“Bolada com o Brasil!”

Por coincidência ou karma, o Brasil, em parte, foi responsável pela morte da atriz.

Durante a última encenação da ópera La Tosca (de Sardou) em 1905, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a atriz pulou de um parapeito cenográfico para cair sobre colchões colocados atrás do cenário, mas daquela vez o funcionário do Teatro Lírico se esqueceu de cumprir a sua função e a francesa machucou gravemente o joelho direito.  Ela nem conseguiu retornar ao palco para receber os aplausos. O acidente causou a gangrena que se desenvolveu em sua perna. Apesar dos apelos dos amigos para que permanecesse no Rio de Janeiro para se tratar, mesmo manca e febril, Bernhardt partiu para os Estados Unidos. Horrorizada com as mãos sujas do médico de bordo, não permitiu que ele tocasse em seu joelho. A situação só piorou e dez anos depois, Sarah foi obrigada a amputar a perna direita em 1915. Mesmo assim, a atriz continuou atuando por mais alguns anos até falecer em Paris em 1923. Brasil… Ame-o ou deixe-o!