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A Mangueira honrou a nação brasileira!

O carnaval não é uma festa que pertença a todos os brasileiros. Eu já acreditei nisso – ou fui induzido a – na mais tenra idade. Assim como acreditei que os telejornais e jornais só diziam a verdade – mas eu era criança. E quando criança estudei em colégios públicos – frutos da máxima de Anísio Teixeira de educação gratuita e de qualidade. Se era de extrema qualidade não posso afirmar, mas aprendi inglês e a ler partituras musicais nesses estabelecimentos. E aprendi a conviver com amigos de comunidades carentes. E por deixar que pessoas como eu tivessem alguma consciência social é que Teixeira acabou morto em um poço de elevador em circunstâncias para lá de misteriosas – assim como é um mistério o que tem acontecido com este país nos últimos meses.

Carnaval é a festa da carne, de desejos inconfessáveis, que desde o Império serviam para aliviar as mazelas da população. Período festivo em que negros e pobres paupérrimos vestiam-se de reis. Data em que o próprio Imperador fazia reverências a reis negros para que a farsa aliviasse a pressão social. Afinal não foi este país alcunhado de “ditabranda” por revista de circulação nacional e chamado de democracia racial por artífices da construção nacional?

Para manter-se o equilíbrio social, têm-se alimentado a prática nacional de não resolver as questões profundas e surfar na superficialidade. A mesma superficialidade que ainda afirma que os pilotis de Brasília são áreas de ampla convivência social como as praias cariocas não são subdivididas em classes.

Tupinambás (captura de tela)

Mas para pessoas como eu, “doente dos pés”, Carnaval também é um período de reflexão e imersão. Meu Carnaval não se faz a dançar nas ruas, mas no hábito de assistir aos desfiles pela TV – e de algumas vezes ter ido a ensaios em Escolas de Samba e à Marquês de Sapucaí no Rio para acompanhar a concentração das Escolas, ver os carros alegóricos e os seres humanos sob as fantasias. Quando adolescente eu só queria saber de rock and roll. O tempo me fez ver, mais do que crer, que rock não era apenas rebeldia à esquerda e samba à direita. Compreensão parcial da própria superficialidade que me cercava. Mas ao me libertar desses grilhões que antes me prendiam conheci um país sonhador mas doente, mestiço e racista, de glórias mil e grilhões centenários. E meu catecismo libertador teve seu apogeu nos grandes sambas enredos.

Em 2018, muitos encantaram-se com o samba “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” da Paraíso da Tuiuti, mas uma coisa é deixar-se encantar, outra é compreender. Quem sabe se muitos desses encantados não preferiram o encantamento da mamadeira, da escola sem partido, da bíblia e das fake news em detrimento de sua própria essência?

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Assassinos!

A essência dos blocos carnavalescos é a crítica e todo governante teme as seqüelas. O popular desconstrói e destrói. E as Escolas de Samba, estejam ou não rendidas ao poder econômico, à censura das transmissões televisivas, ao corporativismo, nada disso mais importa quando a consciência precisa respirar o seu último ar de dignidade, nada disso mais importa quando o ar está carregado de indignidade. E em momentos farsescos como os que vivemos ameaças são dirigidas aos artistas, aos negros que não aceitam os grilhões, às comunidades carentes submetidas ao regime das balas dos traficantes e dos militares salvadores da Pátria, ameaças ditas nas entrelinhas.

Mas seja por qual motivo for, se por raiva ou pela falta de investimento no carnaval, eu já não quero mais saber, pelo menos a minha e a alma de milhões de brasileiros está lavada pelo Samba-Enredo “Histórias pra Ninar Gente Grande” da Mangueira de 2019.

Duque de Caxias o exterminador (captura de tela).

A melodia não me empolgou como ocorreu com a Tuiuti de 2018, mas tudo o que cerca a composição, sua letra, coreografia, dançarinos, carros alegóricos, a imagética, o momento, tudo somado me atiça o espírito revolucionário, e eu espectador passivo liberto o meu, o seu, o nosso Marighella ao ver a história oficial reduzida a anões (sem culpar os anões, é claro) e índios, negros e mulheres elevados a heróis.

RIO DE JANEIRO, RJ 04.03.2018 – Carnaval 2019 – Desfile da Mangueira. foto: Emiliano Capozoli

A cena do carro alegórico do monumento aos bandeirantes mergulhado em sangue (“O sangue retinto por trás do herói emoldurado” sobre o genocídio de mais de 300 mil índios pelos Bandeirantes) e o patrono do exército mostrado como um assassino sobre cadáveres talvez tenham sido as cenas mais fortes que já tive a honra de ver em um carnaval.

Mônica Benício, viúva de Marielle Franco.

Chorei ao ver Mônica Benício, a viúva de Marielle Franco desfilar altiva na Passarela, mulher guerreira, santificada pela dor, honrada como poucas e envolta por estandartes com o rosto de sua amada.

Um ano após ter sido executada por policiais, e sabe-se se por governantes no poder, Marielle é uma sombra incômoda ao poder estabelecido, uma cusparada na cara dos hipócritas, dos que sambaram ao enredo da Tuiuti e o negaram ao votar.

Ergam os punhos, desfraldem a bandeira.

“Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês.”

Obrigado, Mangueira!

Seja Marginal, Seja Herói!

EUGÊNIO COLONNESE & SERGUEI, O DESENHISTA E O ROQUEIRO, TÃO DIFERENTES E TÃO IGUAIS.

Desde priscas eras, o cartunista Márcio Baraldi tem sido um militante pela preservação da memória dos quadrinhos brasileiros. Começou entrevistando figuras exponenciais – uma lição que toda jornalista conhece: entreviste enquanto é tempo – no Bigorna.net para em seguida prensar as entrevistas em DVD. Alguns ainda questionam a validade da mídia física, livros, CDs e DVDs como se esses formatos não pudessem conviver em paz com as “nuvens”. Renegam o investimento feito em cada um desses lançamentos, seja criando, gravando, editando, prensando e distribuindo. Mas, Marcio, ainda bem, não está nem aí e segue em frente. E isso tudo sem contar como – ainda – é árduo estimular o público a adquirir produções nacionais.

Edy Star, Calanca da Baratos Afins, Marcio Baraldi e Serguei em Sampa (Foto: Bolívia e Cátia Rock)

O tema desta matéria versa sobre dois recentes DVDs da lavra Baraldina: “Na Cama com Serguei” (com sincronística participação do amigo e escritor carioca Paulo-Roberto Andel), o roqueiro-mor-carioca e “Sobrou Alguma Coisa no Tinteiro? – Vida e Obra de Eugênio Colonnese”. Aparentemente são duas figuras distintas. O primeiro, “roqueiro” e o segundo, desenhista. Mas ambos têm muito em comum.

E esta não é apenas uma resenha sobre dois DVDs, mas um texto sobre a vida.

Eu via Serguei em algumas e esporádicas participações na TV e o conheci pessoalmente nos anos 1980 na Rádio Fluminense em Niterói, quando ele havia voltado à ativa em palcos como os do Circo-Voador no Rio. Mesmo que te contem, só quem viveu a virada dos anos 60 para 70 do século passado é que pode ter noção do que foi e como era aquele período. A juventude se dividia entre os que haviam caído na guerrilha contra a ditadura e os alienados, vamos dizer assim, um grupo bem heterogêneo que somava o público de telenovela a cabeludos que viviam em um mundo paralelo. E digo isso porque vi pessoas talentosas se perderem em drogas e falta de noção. Por isso, se o mundo não te afaga, trace você mesmo o seu caminho com sua régua e compasso. Serguei e Eugênio mandaram ver e concretizaram sonhos. Serguei quis ser do rock e largou tudo, desbundou e apertou o botão do foda-se. Colonnese trocou a Itália pelo Uruguai e Argentina para depois desembarcar no Brasil em 1964 e virar mito (esse sim, não o outro).

E nos anos 80, de ônibus – de Niterói para o Rio – Serguei me contou que residia em um apartamento em Copacabana com a mãe idosa. Entendi o que ele havia tentado me transmitir, ou creio ter sido isso, que roqueiro no Brasil é um ser mais ambíguo do que Bowie, glitter como Sidney Magal e que aqui, drogas-sexo e rock and roll é só na quebrada do morro.

Marcio Baraldi e Serguei em São Paulo na Baratos Afins (foto: Leandro Almeida)

Em contrapartida, Colonnese era uma figura inacessível, um ídolo distante, um desenho de banca, até que pelas viradas que a vida dá, o neto dele se hospedou em minha casa há alguns anos e pude relatar ao jovem o quanto o avô dele havia me inspirado.

Não sei quantas histórias desenhadas pelo Colonnese li na vida, mas tenho uma memória afetiva muito forte, os traços limpos, claros, como nunca havia visto no país. E o que nos ligou, ainda mais fortemente, foi a história brasileira em 1972, no sesquicentenário da “Independência”. O governo militar havia lançado um filme sobre Dom Pedro I (filme que gosto até hoje), e os corpos de nossos imperadores retornavam ao Brasil. E somado a tudo isso, tive a oportunidade de comprar as obras de arte da editora EBAL, as quadrinizações de clássicos da literatura e de nossa história – oficial. E como esquecer o Dom Pedro primeiro desenhado pelo Colonnese?

Agora vamos às diferenças.

Serguei não se sente bem sendo brasileiro e o desenhista Colonnese não era brasileiro, mas adotou o Brasil como sua casa. Em uma visita à casa de Serguei em Saquarema, interior do Rio, em 2007, testemunhei que o vocalista deixava o canal Fox News ligado em alto som, o tempo inteiro. Perguntei o por que e ele respondeu: “Só gosto de ouvir inglês!”

Essa – grande – introdução se faz necessária, porque como músico e desenhista sinto-me conectado aos dois personagens de alguma forma. São referências próximas, de altos e baixos, humanos seres divinos, que como todos os artistas da vida, seja músico, ilustrador ou camelô, enfrentam a luta diária pela sobrevivência do corpo, alma e espírito.

Serguei é entrevistado na cama em sua casa-templo do rock por Rodrigo Barros, Janaína Storfe e Paulo-Roberto Andel entre imagens de santos, roqueiros e VHS. Depoimentos sobre Rock and Roll, o passado e a cena gay de Copacabana, entremeados pela bandeira do Fluminense e a cadela Elis. E além da entrevista, o DVD ainda traz um pôster; o bonito e cinematográfico curta “Serguei Íntimo” da cineasta carioca Luciana Cavalcanti; a biografia; discografia e uma galeria de fotos mais o show completo do Rock in Rio em 1991 no Maracanã em que o vocalista pôs toda a galera para sentar e ouvi-lo cantar Summertime.

No DVD sobre Colonnese, Marcio Baraldi entrevista familiares do artista, e pessoas que trabalharam com ele, sempre se dirigindo à câmera como um fã e não como um doutor, um acadêmico. É como uma conversa de bar em que paixões e comentários sobre os nossos artistas favoritos são ditos sem a rispidez e a agudeza das espadas. Não há edições profissionais feitas com verba, mas há empenho, necessidade premente de ter um registro, de mostrar aos garotos que idolatram a Marvel e a DC que tivemos a D-Arte, a Opera Graphica, e a Bloch, entre tantas editoras que investiram pesado em histórias nacionais. Por isso, “Tinteiro” é uma ode à paixão, um elogio amoroso à prancheta, ao nanquim, ao papel, e principalmente a produzir com talento e eficiência. Esta é a lição que o mestre Colonnese nos deixa. Amou, foi amado e distribuiu o amor através de milhares, milhões de páginas que queiram os bons espíritos, povoem a imaginação de outros tantos milhões.

A mensagem deixada tanto pelo desenhista como pelo roqueiro é simples e muitas vezes mal entendida: ame. Apenas isso.

Contatos: marciobaraldi@gmail.com

A revista TUPINAMBAH no COMBATE ROCK

“A revista Tupi Nambah, com textos, desenhos, imagens, quadrinhos e roteiros de autoria de Carlos Lopes, é um sopro de criatividade e resistência em um momento grave da vida político-econômico-social deste Brasil infeliz dominado pelas trevas, pelo retrocesso e pela irrelevância em todos os sentidos. A crítica política e social é ácida e contundente, com forte viés de protesto e de esquerda, passando por uma verdadeira aula de história e de sociologia enfocando a vida brasileira a partir da Segunda Guerra Mundial. A obra cometida por Lopes é de uma importância crucial para entender o momento em que vivemos, sem retoques ou eufemismos.”
Marcelo Moreira, jornalista do Combate Rock.

https://combaterock.blogosfera.uol.com.br/2019/01/25/carlos-lopes-e-a-tupi-nambah-sao-as-vozes-roqueiras-contra-o-atraso/?fbclid=IwAR2WgaBoCnYO_XNHNQb_Y2WaElynoZ8marL8MF9dN5agkjSQkYbPSmx3w3c

ECOS HUMANOS

ECOS HUMANOS – Edgar “Ciberpajé” Franco (roteiro) e Eder Santos (arte) – 72 páginas – Preto e Branco – Editora Reverso (2018).    

Arte é questionamento, reflexão, mais do que apenas uma mera representação do bem e do mal como forças estanques.   Eco é uma reflexão do som. Um som que persiste mesmo após a sua emissão ter sido extinta.   E o que é humano? Ser “racional”?   Ecos Humanos versa sobre o Pathos, a patologia de padecer para aprender.

Edgar Franco imagina, Eder Santos molda a argila. Um trabalho lúdico como um beijo no rosto e direto como um corte na jugular.

Em Ecos Humanos não há diálogos. São imagens sequenciais de feras antropomórficas que buscam saciar a fome e preservar as suas vidas entre cercas, como quase todos nós que facilmente nos enganamos com a palavra segurança. Muros que permanecem em pé até que a morte ou a mudança cortem-nos as bases. Um “Paradoxo de Popper”antropomórfico que te impulsiona a agir após as possibilidades terem sido teoricamente esgotadas. Os excessos de liberdade que antecedem a autofagia.   A mensagem transmitida pelo não-texto permite (re)contar a saga humana através de imagens em preto e branco que apenas nos pedem a agudeza do olhar e a perspicácia do sentir. Não é pedir muito, não é? Os signos espalhados pelas páginas espelham nossos rostos incrédulos perante tanta beleza e crueldade. Sequências de reflexões, negras como a boca da noite para então retornarmos ao campo vazio da esperança.   A obra se descortina como se estivéssemos perante uma enorme tela na qual surge o universo que se apequena em direção a um conhecido planeta – e em especial a um país de “raposas” e aves de rapina.

Edgar Franco não é simplesmente “humano”, é um xamã. Sendo assim, a obra é extensão de sua persona, exatamente como um eco. Por isso, boa parte da obra de Franco se relaciona ao xamanismo, a comunhão entre os mundos. Os quadrinhos também são transe espiritual, o que nos permite eliminar a ilusão do mundo “real”, para então entrarmos na “realidade” do nosso inconsciente, individual e coletivo, não apenas em busca de respostas, mas na comunhão profunda do nosso ser. É assim que também imagino e almejo a arte: libertadora. Creiam que não há super heróis que possam nos salvar de nós mesmos.

Eder Santos e Edgar Franco na FIQ em Belo Horizonte, 2018.

Após escrever a resenha, auscultei a obra mais uma vez -, e certifiquei-me do escrito. Creio que não poderia ser diferente já que os sobrenomes dos autores de Ecos Humanos, Edgar Franco e Eder Santos, somam-se na convocação “Santo Franco”!  

http://ciberpaje.blogspot.com/