GOETHE

Matérias

Era no início o Verbo

Era no início o Poder

Era no início a Ação

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), filósofo, poeta, estudioso da natureza, político e cientista nascido no final do século 18 em Frankfurt na Alemanha no mesmo dia e mês deste que vos escreve. Por causa dessa pequena coincidência, nasceu meu interesse em sua obra e história.

O primeiro contato de Goethe com as artes plásticas surgiu de um estranho fato: quando tinha 10 anos, sua cidade foi invadida pelos franceses. Sua casa tornou-se quartel general de um ocupante e nobre francês de nome Thoranc que lhe influenciou vivamente, ao convidar artistas importantes para visitá-lo. Daí em diante, o rapaz estudou filosofia, filologia (estudo da língua e de documentos) e direito, tornando-se escritor e homem de Estado em poucos anos. Uma verdadeira ascensão, pensada passo a passo por sua tradicional família burguesa.

Em 1770 decidiu superar todas as fraquezas da carne e mente permanecendo dentro de cemitérios escuros para superar o medo, subindo nos lugares mais altos para acabar com o pavor da altura, e frequentemente encostando os ouvidos nos instrumentos de altíssimas bandas de música para suportar o volume excessivo, etc.

Em 1771 – através do seu personagem Werther – pensou diversas vezes em acabar com a própria vida na ponta de uma lâmina. Preferiu falar sobre isso através da ficção, apaziguando a dor e as incertezas de estar apaixonado pela noiva de outro.

Em 1775 já era um verdadeiro superstar, aclamado e reconhecido como grande escritor, antes mesmo dos 30 anos. Sua obra “Os Sofrimentos do Jovem Werther” tornou-se um sucesso estrondoso.

Educado para acreditar no modelo de uma família perfeita, logo viu seus sonhos desmoronarem pelo simples contato com o sexo oposto. Não era tão fácil como pensava. Apesar de Goethe ter investido demasiadamente em tudo – ciência, artes plásticas, poesia, política e história -, nada disso findava os seus problemas com as mulheres e nada lhe aventava a possibilidade de alcançar o prazer perfeito do contato físico: um dilema difícil para homem tão preparado.

Apaixonado por uma mulher casada, decidiu abandonar o papel incômodo de ser o outro, casando-se com Christiane Vulpius, uma plebéia simples, de traços meridionais e bastante independente. As pessoas viravam-lhe a cara por causa da esposa.

Em 1786/88 viajou – desencantado – à Itália. Lá entre museus e exposições, viveu uma grande crise espiritual que o debilitou mentalmente e fisicamente. Em compensação reviu a própria vida e pensamentos, buscando o belo em todos os lugares, percebendo a riqueza dos detalhes em uma simples flor, vegetal ou pedra, inclusive tendo produzido diversos desenhos eróticos – somente publicados após a sua morte.

Ao retornar à cidade natal, tornou-se ainda mais místico estabelecendo contato com a alquimia e textos de fraternidades espirituais. Após um bom tempo sem escrever, ordenou à pena que criasse clássicos, o que fez sem pestanejar. Começou uma nova e mais rica fase, que nem as paixões e nem o tempo nada puderam fazer contra.

Em 1790 publicou a primeira versão de A Metamorfose das Plantas, resultado dessa nova fase.

Em 1806, Napoleão conquistou o Império Alemão. Goethe curtiu essa vitória (afinal o corso era quase francês), mas depois de conhecê-lo pessoalmente em 1808 mudou de idéia, tornando-se seu crítico ferrenho. Ainda nesse ano, Goethe fez a última revisão de Fausto, após mais de 35 anos de trabalho árduo. Confessou a um amigo que se não tivesse selado o livro, certamente ainda teria tentado revisá-lo mais vezes. Em 1808 tem o seu primeiro Fausto publicado. São mais de 12 mil versos. Entre 1790 e 1810 desenvolveu sua teoria cromática; citando os “daímones” (forças côsmicas) e outras “coisas demoníacas” fazendo um paralelo pseudo científico entre as cores, luz e sombra, teorias bem mal recebidas pela comunidade científica do seu tempo. Goethe acreditava que a observação atenta da natureza seria a chave para a compreensão dos fenômenos naturais, ao contrário de Newton, por exemplo. O alemão desenvolveu o princípio da polaridade e da elevação. Acreditava que um só princípio regesse todas as regras da natureza, apesar de manter-se afastado de conceitos religiosos tacanhos. Goethe acreditava que o confronto entre o espírito humano e o mundo material criava a arte, que fundamentava a sua teoria da elevação, provando que a natureza possui a capacidade de se superar infinitamente.

Após a morte da esposa Vulpius em 1816 volta a “investir” em esposas alheias, granjeando os favores sexuais da casada Marianne Willemer. Depois, investiu ainda mais pesado quando com 74 anos se relaciona sexualmente com Ulrike von Levetzow de apenas 19 aninhos.

Aos 82 anos de idade, concluiu a segunda parte do Fausto. “Minha missão está encerrada” ele disse. Morreu alguns dias depois em 22 de março de 1832.

“Vivi cada linha que escrevi, mas não as escrevi tal como foram vividas”

“Onde não há poesia não pode existir verdade e vice-versa.”

 

Curiosamente Goethe escreveu três poemas sobre o Brasil (veja só). Um deles cá está.

Canção de morte de um prisioneiro brasileiro (1782)

 

Vinde com coragem, vinde todos,

E juntai-vos para o festim!

Pois com ameaças, com esperanças

Nunca me dobrareis.

Vede, aqui estou, sou prisioneiro,

Mas ainda não vencido.

Vinde, devorai meus membros,

E junto com eles, devorai

Vossos ancestrais, vossos pais,

Que foram meu alimentos.

Esta carne, que vos dou,

Insensatos, é a vossa,

E na minha medula está

Cravada a marca de vossos ancestrais.

Vinde, vinde, a cada mordida

Vossa boca poderá saboreá-los.

 

OS ANOS DE APRENDIZADO DE WILHELM MEISTER – Johann Wolfgang von Goethe (Editora 34)

“Sereno e profundo, claro e, contudo, incompreensível como a Natureza, é assim que (o romance) atua sobre nós e é assim que se apresenta, e tudo, mesmo os menores detalhes, tudo revela o belo equilíbrio espiritual de onde emanou” (carta de Friedrich Schiller a Goethe datada de 2 de julho de 1796).

Escrever sobre Goethe é referir-se a uma das mais fascinantes personalidades desses últimos 300 anos. E aqui não me cabe ressaltar as qualidades do livro ou do autor alemão, que sabiamente condensou a sua experiência pessoal e profissional à época do lançamento (1795/6) em nome de um personagem, que tanto possuía dele o sangue, como o ideário de toda uma geração romântica. Poderia eu, enveredar por um pretenso texto academicista, mas além de carecer do estofo necessário, basta-me o simples relato de certas passagens da vida de Goethe para que o leitor compreenda o quanto há em comum entre o escritor, historiador, político e filósofo e o personagem Meister. Com 10 anos de idade, Goethe travou contato com os invasores franceses. Foi um fator determinante, que aventou-lhe a possibilidade (ou necessidade) de agregar culturas diferentes à sua. Apesar de reconhecido como escritor, e trabalhando como Conselheiro de Estado em Weimar (onde residiu por uma década), Goethe, em meio a uma grave crise pessoal, optou por abandonar tudo – na calada da noite – para banhar-se no calor do conhecimento italiano, residindo por – quase – 2 anos no país latino. O escritor cambiou noções objetivas por subjetivas, decidindo dar “vida às pedras”, paralelamente interessando-se mais pelo sexo oposto; em maior sintonia com o mundo natural. Nascia um novo Goethe. O período romano significou a retomada de sua carreira de escritor, que havia sido relegada a um inexplicável segundo plano, em face das várias obrigações burocráticas. O personagem Meister deixa para trás sua família burguesa, viajando livre com uma caravana de artistas. Recriando-se como ator e poeta, a todos conhece, crescendo e aprendendo a cada povoado. Ao mesmo tempo confronta seus ideais com o mundo real, compreendendo que nem tudo são flores na arte e no amor. A harmonia interna passa a ser um objetivo a ser alcançado. O romance se contorce em desdobramentos quase inesperados. “Formar-me plenamente, tomando-me tal como existo”. Esse é tanto o objetivo do criador como da criatura. Porém nem mesmo após uma exuberante interpretação de Hamlet, há sossego espiritual para o jovem viajor. Não encontrando o que necessita, cai: sua busca se esfacela. Os anos de aprendizado cobram-lhe uma nova rota. Soterrado pelo dilema, Meister compreende e aceita as necessidades do mundo, cabendo-lhe o destino que lhe foi ofertado desde o início. O de prosseguir com a profissão e os ideais do pai, que antes era visto como um inimigo. O jovem aceita o fato, compreendendo que não há sentimento de derrota envolvido. Nasce um novo Meister. Se esse livro não possuísse nenhuma importância, por que ainda estaríamos aqui o debatendo, centenas de décadas depois, falando sobre os mesmos dilemas sem encontrar novas respostas às mesmas e velhas inquietações? O amor ou a segurança? A arte ou a falta dela?

“A razão é cruel, o coração é melhor” já dizia Meister. Até que os sinos dobrem novamente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *