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LEE MILLER

A americana Lee Miller (Poughkeepsie, Nova Iorque 1907 – Sussex, 1977) teve uma vida fascinante e não menos conturbada.

Estuprada aos sete anos, contraiu gonorréia e sofreu durante anos por causa dos tratamentos a que era submetida. Seu pai, foi quem lhe ensinou os primeiros truques da fotografia e Lee era a sua modelo favorita. O fato mais notável dos nus da filha feitos pelo pai Theodore Miller, seja que a modelo parece ausente, separando sua mente do corpo.

Rica, rebelde, bonita e livre, Miller foi para Paris em 1929 para se tornar, ela mesma, uma grande fotógrafa e segundo a revista Time “o mais lindo umbigo de Paris”.

Miller escolheu devidamente o fotógrafo mais artista de todos, Man Ray, de quem foi assistente, amante e musa para ser seu guia no escuro da nova e velha cidade. Man Ray, nascido Emmanuel Radnitsky, na Filadélfia – havia seguido seu amigo Marcel Duchamp de Nova Iorque até Paris, onde foi adotado pelos surrealistas. Miller se embrenhou no Surrealismo trabalhando com os códigos do subconsciente, sonho e delírio do estilo. Inclusive arrumou tempo para ser interpretar uma estátua no curta “O Sangue de um Poeta” de Jean Cocteau, o que deixou Ray louco porque ela foi submetida a uma verdadeira tortura, com os braços atados, a cabeça coberta por uma peruca de papel machê e pintada com uma tinta branca e ainda tendo que enfrentar um boi, salvo de um matadouro para representar um touro.

Man Ray e Robert Penrose

Ray ensinou-lhe vários truques e a tornou uma artista de fato, (solarização e fotos de nus avant-garde) mas o fotógrafo era tão apaixonado e possessivo por ela, que após a separação dos dois, ele ainda escreveu-lhe uma carta arrebatadora:

“Amei você de uma forma extraordinária e possessiva: esse amor reduziu em mim a intensidade de qualquer outra paixão, e, para compensar, tenho tentado justificá-lo, dando a você todas as oportunidades que estão ao meu alcance para que tudo de interessante em você se revele. Quanto mais capaz você parecia, mais o meu amor parecia justificado, e menos me arrependia de qualquer esforço em vão da minha parte (…). Sempre fizemos concessões mútuas – até que surgiu esse novo elemento, que lhe deu a ilusão de que está se libertando de mim…”

Duas das mais famosas obras de arte de Man Ray sobre a perda de sua paixão são:

“Objeto a ser destruído”, um metrônomo com o olho de Lee no ponteiro que teve várias cópias pois nasceu para ser literalmente destruído e “Tempo de Observatório” onde os lábios da amante ondulam nos céus sobre uma grande cidade.

“A sua beleza a transformou em ícone do momento, na perfeita Nova Mulher, que evoluiu do charme “duvidoso” de boneca de porcelana por Louise Brooks ou Clara Bow até o vigor pouco convencional, esbelto e de longas pernas, a força elástica, suavizada por uma fresca inocência americana – um galgo insinuante bonito, ávido para entrar na corrida” como escreveu Francine Prose no livro A Vida das Musas.

Miller montou um estúdio de fotografia na capital francesa, e dedicou-se ao retrato e à fotografia de moda. De volta a Nova Iorque em 1932, tentou a mesma sorte, obtendo algum reconhecimento e dinheiro, mas a sua alma impaciente não iria aguentar aquela vida durante mais tempo. O negócio corria bem até que surgiu Aziz Eloui Bey, um milionário egípcio com quem se casou, fechando o estúdio e indo de mala e cuia para o Cairo.  Nimet, a bela esposa de Aziz se suicidou assim que soube do romance dos dois. E Man Ray tirou um retrato de si mesmo apontando um revólver para a cabeça, sugerindo que iria fazer o mesmo.

Complacente, o marido deixou com que ela tivesse amantes e que continuasse fotografando para que a esposa não ficasse entediada. 5 anos depois, mais uma vez o Surrealismo bateu-lhe à porta através de Roland Penrose, artista interessado nas profundezas do espírito humano, aquele que viria a ser o segundo marido de Lee em Londres. Era uma momento conturbado para a Europa e para o mundo: a Segunda Grande Guerra estava bem próxima de estourar.

A vida boêmia entre geniais artistas inconsequentes, talvez antecipando o que estava por vir – a Guerra -, fez Miller retratar essa fase de sua vida tramando uma de suas fotos mais curiosas, mezzo inspirada em Paul Gauguin, e seus quadros com as taitianas com seios à mostra, e mezzo mesclada ao escandaloso quadro O piquenique no bosque de Édouard Manet, pintado entre 1862 e 1863. Nessa famosa composição de Miller, estão presentes o poeta Paul Eluard e sua mulher Nusch (os que namoram) em companhia do pintor inglês Roland Penrose, do fotógrafo Man Ray e da dançarina Ady Fidelin, num piquenique de verão na Île Sainte-Marguerite em Cannes na França em 1937.

Nessa fase, Miller aceitou o convite de trabalho da revista Vogue.

Em 1939, ela e Penrose souberam ad invasão da Polônia pelos alemães e foram residir em Downshire Hill, Hampstead longe da França e fora do centro de Londres. Mas as bombas nazistas mais tarde chegariam à ilha e Miller não ficou imune a isso. O livro “Grim Glory: Pictures of Britain Under Fire” de Lee mostra uma Londres bombardeada, mas suas fotografias de ruínas são estilosamente sarcásticas e elegantes, como nunca se vira antes.

A um ano do fim da Segunda Guerra Mundial, a revista manda-a para a frente de combate. Lee forma equipa com o fotógrafo da revista Life David E. (ou Dave) Scherman, tornando-se uma das poucas mulheres a fotografar o conflito na Europa. 20 dias depois do Dia D, desembarca na Normandia. Fotografa o cerco a St. Malo, a Libertação de Paris, os combates no Luxemburgo e na Alsácia, o encontro entre russos e americanos em Torgau e a libertação dos campos de concentração de Buchenwald e Dachau. Em Munique, regista as casas de Hitler e Eva Braun. E essa é uma de suas imagens mais conhecidas e provocativas: fotografada por Scherman, Lee surge na banheira do ditador alemão em Munique, entre uma provável arrumação do retrato de Hitler á esquerda e o nu “kitsch” à direita.

Outras fotos fascinantes são a de uma moça loura estendida sobre um sofá como se estivesse adormecida, mas na verdade é a suicida filha do burgomestre nazista de Leipzig e a da casa de Hitler em Berchtesgaden ardendo em chamas.

“A Alemanha possui uma bela paisagem marcada por vilas que são verdadeiras jóias, e cidades arruinadas habitadas por esquizofrênicos. O cenário da Guerra não ocorreu muito dentro do país, a punição pela agressão não foi suficientemente dura.”

Com a queda da Alemanha, Lee segue para leste no rasto dos mortos e feridos, vítimas de um a guerra monstruosa. De regresso a Londres, trabalhou mais dois anos para a Vogue fazendo retratos de celebridades e muitas fotos de moda.

Depois de uma discussão com Penrose, Lee voltou para Paris,onde caiu numa depressão agravada por u consumo descontrolado de álcool e benzedrina. Em uma carat não enviada a Penrose se queixou “de um mundo novo e enganador. Não foi para viver em paz em um mundo de canalhas sem honra, sem integridade e sem vergonha que nenhum de nós lutou”.

A Lee que retornou para a Inglaterra e para Penrose era um desastre físico e mental. Grávida, na casa sem aquecimento de Penrose, se entregou à derrota, inclusive aceitando (após ter feito por milhares de vezes o mesmo) um ménage que incluía ela mesma, Penrose e sua ex-mulher Valentine.  Ah… nesse período ela se divorciou na mais bela tradição muçulmana do egípcio boa praça.

A festa em Farley Farm, casa do recém casado casal em Sussex, torna-se um local de visita obrigatória para a vanguarda artística que passava pela Inglaterra. Porém o seu trabalho como fotógrafa piorou drasticamente. E para completar, em 1955 desistiu de sexo e Roland se entregou a um romance com a trapezista Diane Deriaz. Enquanto Roland virava curador da Tate Gallery em 1960, Miller desinteressada da arte, entrou de cabeça no mundo da culinária.

Lee Miller desencarna aos 70 anos vítima de um câncer em 1977. No início dos anos 80, o filho de ambos, Antony, começa a estudar, conservar e promover as imagens da mãe porque sua esposa queria achar fotos do marido quando era bebê e vasculhando os baús esquecidos no sótão da casa em Farley Farm encontrou o original da matéria sobre o cerco de St. Malo na Europa.