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SÉRIES, COLONIZAÇÃO, CONSERVADORISMO, CRIATIVIDADE!

Tenho assistido a um canal de TV aberta de São Paulo que exibe as mesmas séries estadunidenses antigas que eu via quando criança nas décadas de 1960 e 1970. À primeira vista, achei meio exótico rever material tão antigo sem alguma motivação “valorosa”, mas ao ver um ou outro episódio, sem me cobrar muito, a curiosidade tornou-se hábito. Logo percebi que não se tratava de nostalgia, mas de um processo de autoanálise. Acredito que muitas de nossas escolhas atuais são resultado de um processo inconsciente de percepção do mundo até a pré adolescência, e através do material antigo reencontrei pistas sobre a minha percepção do mundo atual, e pude me conhecer melhor. O que de praxe, me faria tender para o lado crítico (rever uma série de caubóis é colonização cultural), me proporcionou bem mais. Rever seriados antigos me permitiu reanalisar a própria vida, me entender como pessoa, refletir sobre a sociedade e analisar minhas próprias escolhas através das décadas.

Waltons

Há dois seriados que assisto hoje com os quais eu não tinha a menor paciência na década de 1970: Waltons e Os Pioneiros. Quando criança, eu nem sabia o que havia sido a Grande Depressão americana do norte (de 1929) e nem entendia o que era ralar para sobreviver – já que minha mãe lavava minhas roupas. Entendia os roteiros como podia. E mesmo assim aprendi muita coisa (da mesma forma como a série Túnel do Tempo me estimulou a estudar história). Contudo e apesar de, ambas as séries que mais assisto hoje falam sobre famílias tradicionais e rurais sem grandes questões existenciais. Nos Waltons, John-Boy, o adolescente do interior que sonha em ser escritor, é o pilar da história. A sua família corta madeira todos os dias, para que os filhos possam ter um futuro melhor, em um mundo economicamente desestruturado pós a Grande Depressão de 1929. E querer ser um escritor é uma espécie de luxo que quem tem fome não pode sequer ousar em ter… E nos Pioneiros, uma família luta para se estabelecer em uma pequena cidade-vila no final do século XIX em Minnesota. Ambas as séries são românticas e exaltam a luta do “homem” contra as dificuldades e da importância da família como pilar da sociedade. Há elementos idealizados que também transmitem mensagens idealizadas – que se todos trabalharem duro, Deus ou a meritocracia os poupará do fogo da danação. E creio que a vida não é assim, tão preto e branco. Porque negros obviamente tinham menos oportunidades, assim como as mulheres, que apesar de fortes, são submissas àquela época e sociedade. Tive uma reflexão semelhante nesta semana, ao assistir a um episódio de A Feiticeira em que o marido chegava em casa, em 1968, tempos de revolução cultural, e reclamava: “Cadê a minha comida?”. Lembrei do meu próprio pai falando com minha mãe na década de 1990!

Os Pioneiros

Estudando um pouco as séries, Waltons e os Pioneiros, me dei conta da época de produção, por volta de 1972, tempos de campanha presidencial (só nos EUA mesmo, porque aqui era ditadura…). E é aí que se faz uma singela ligação com os tempos atuais. O candidato democrata, McGovern, era anti-guerra (Vietnã), mas perdeu para Nixon, que dizia que o democrata era o candidato dos três As: Ácido, Anistia e Aborto! Parece tão atual, não é? Não te faz recordar de da mamadeira? Do pastor que ganhou a prefeitura do Rio derrotando o candidato “maconheiro”?

“Faz arminha que passa!”

E quanto ao escândalo de Watergate em 1974, sobre um presidente “honesto” que foi pego em atos de suborno, espionagem e corrupção…?

O que evoluiu de 1972 até hoje? A sociedade é de fato conservadora ou simplesmente hipócrita?

E pensar sobre isso, em nossos tempos políticos conturbados (para dizer o mínimo) é bastante curioso.

Sempre sonhei em ver boas produções de séries nacionais na TV (e hoje, na internet há algumas, mas aquém do que eu imagino ser o ideal) que pudessem me cativar ao ponto de eu poder deixar de fazer algo por uma hora para me deliciar com um produto que pudesse sentir como meu, como parte de mim, assim como eu me sentia com a série Arquivo-X que vi de cabo a rabo. E revi.

Escrava branca

Mas, quando falo em produções nacionais, me refiro a trabalhos com linguagem própria, cultura e pensar locais. E que não precisem ser colonizadas, globalizadas e nem esteriotipadas. Reprises do mundo-cão… Escrava Isaura, guerra de tráfico na favela, e corrupção na política podem ser reescritas com muito mais criatividade e sem lacração.  E principalmente, produtos que façam o Brasil encontrar um caminho próprio. Em português, sem a necessidade de ser aceito no exterior. Sei que há muitas séries nacionais na Globo e na TV fechada (Justiça, Copa Hotel, 3 Teresas, 3%, Irmandade, O Escolhido, ), mas eu não tenho – ainda – o interesse em assistir. Meu momento é de rever o que já vi e repensar.

Mauá

Mas tento acompanhar o que posso e quando posso. Uma de minhas paixões é história do Brasil. Por causa disso, assisti no History as séries Gigantes do Brasil e Mauá. Há aspectos positivos, mas o formato, o roteiro e mais algumas coisas me incomodaram. Sem contar no discurso liberal e de meritocracia… Além do History ser um canal que se perdeu nas últimas décadas com realities e Ufos nazistas. Isso sem ter que lembrar da série brasileira Detetives da História exibida em 2010-2013 no History, que descobri não ser apresentada por historiadores, mas por atores. Senti-me ludibriado…

Muitos diriam que em um mundo globalizado seria impossível criar um produto brasileiro e criativo. E que isso não daria likes ou audiência… Pode ser, mas a internet, pelo menos a princípio surgiu para fortalecer a ideia de nichos, tanto que as eleições hoje são ganhas através de nichos, fake news, e a exploração das profundezas mais obscuras da alma humana. Por isso, há o vilão que todos amam odiar sem se darem conta que em nós também habita o vilão escancarado ou hipócrita…

Hoje em 2019 (quase 2020) tenho sérios problemas em assistir a séries estrangeiras. Simplesmente eu não consigo. Minha última foi LOST em 2010. Olho para um estadunidense, ou qualquer outro gringo e não me sinto representado. São temas que não me interessam. Prefiro filmes mudos que assisto quase todos os dias. Revejo os Gordo e Magro quase que diariamente. E em termos de Brasil recorro a reedições – e revisões – de programas e novelas no YouTube que realmente revejo, analiso e estudo. 

Mandacaru

Como que por curiosidade, listo uma pequena lista do que revi (de TV nacional) e que me estimula a escrever livros e quadrinhos em busca desse “meu” e “nosso” Brasil, idealizado ou não, tão bom ou não… Uma lista de filmes nacionais dos anos 1930 a 2019 fica para nova matéria.

Kananga do Japão, Mandacaru, Corpo Santo, Dancin´Days, O Grito, O Bem-Amado, Saramandaia, Os Ossos do Barão, Anarquistas graças a Deus, Grande Sertão: Veredas, Tenda dos Milagres, Anos Rebeldes, Anos Dourados, e Agosto, entre outras.